
Nëo estreita os olhos enquanto observa o horizonte entre as árvores, guiando o grupo com precisão quase instintiva. Logo atrás, Kai chuta o corpo do guerreiro caído, virando-o de costas, e um pergaminho escapa de suas vestes. Ao abri-lo, o grupo se depara novamente com as oito silhuetas — eles mesmos — acompanhadas de descrições breves e valores generosos por suas cabeças, ainda maiores caso fossem capturados vivos. Abaixo, um carimbo marcava a origem: uma forja, com bigorna e martelo. Não era um caso isolado. Não era coincidência. Eles estavam sendo caçados, e por gente cada vez mais preparada.
A perseguição recomeça imediatamente. Nëo avança pelo alto, saltando entre galhos e raízes, seguindo o rastro deixado por Grimonatz e pelo grupo que atacou a caverna. Ele não tira os olhos da presa. Kai tenta atingi-lo com lampejos de fogo, mas o guardião sequer desacelera — conhece aquele terreno melhor do que qualquer um ali. Pla corre ao lado de Jairo e, com um toque rápido nas costas, murmura algo sob a máscara; uma luz suave percorre o ombro do draconato, fechando parte de suas feridas. Mais atrás, Hétera acompanha com dificuldade, desviando de troncos que balançam de forma estranha, como se algo estivesse vivo na própria floresta.
Nëo percebe primeiro. Para de repente e ergue a mão, sinalizando silêncio. O terreno à frente está tomado por linhas quase invisíveis, fios tensionados entre pedras, troncos e galhos — armadilhas. Muitas. O guardião se afasta enquanto eles hesitam.
— PALE! — a voz de Pla ecoa pela mata, carregada de magia.
Por um instante, o homem para.
— Corre.
A resposta, seca e mais forte, quebra o efeito, e ele desaparece entre as árvores. A chance se perde. Forçar a passagem seria suicídio. Kai então invoca uma mão espectral, que toca um dos fios. Nada acontece de imediato — até que ela salta sobre ele como um slackline, forçando tensão. A floresta responde. Estalos surgem de todos os lados. Troncos preparados para esmagar, lâminas ocultas, flechas envenenadas, armadilhas enterradas — tudo desperta ao mesmo tempo, como se estivesse esperando exatamente por aquilo.
No meio da confusão, Jairo puxa um pergaminho da própria tanga e tenta decifrá-lo no intuito de ajudar. É magia de vento. Difícil demais para ele sozinho, mas Hétera se aproxima, guiando seus gestos, ajudando a formar os símbolos corretos. Ela enrola o pergaminho como um cone e sopra. O vento começa fraco… e cresce. Em segundos, se transforma em uma rajada violenta que percorre a floresta, acionando tudo de uma vez. As armadilhas disparam em sequência, limpando o caminho à frente com uma violência caótica.
Mas o guardião já se foi.
Sem escolha, o grupo recua e decide esperar a noite. A floresta esfria, escurece, se enche de sons — grilos, água, vida escondida. Nëo vigia do alto, imóvel, enquanto os outros descansam. Quando partem novamente, fazem isso com mais cuidado. Kai invoca Didi para reconhecimento, Pla conjura magia nos pés para atravessar o terreno com leveza, e Hétera replica o feitiço em Jairo, que passa a avançar abrindo caminho com o próprio corpo.
O sinal vem de Kai. Um gesto. Silêncio.
O acampamento.
Hétera encosta as mãos no chão, concentrada, e sente duas presenças adiante. Atacar direto poderia resultar em fuga novamente. Então apostam em algo diferente.
Uma velha miúda caminha ao redor de uma fogueira, interrogando o guardião recém-curado, que responde prontamente. A voz de dentro da mata surge antes que percebam a aproximação.
— Se tentar fugir vai ser pior. Vou te levar pra uma galera que quer te conhecer bem de perto.
Sombras se projetam. Um bárbaro surge carregando Jairo, rendido, e o joga no chão.
— Brutus? — questiona a velha.
— Eu jurava que tinha te visto caindo morto — diz o guardião.
— Eu jurava que tu saiu correndo pro meio do mato sem me ajudar! — rebate o bárbaro, apontando o dedo.
A velha exige explicações, e entre empurrões e tapas, ele conta sua versão: fingiu a própria morte, esperou o grupo dispersar e capturou Jairo. Eles voltariam por ele. Era só esperar.
Ela observa. Analisa.
— E eu pensei que você só servia pra ficar puto e bater. E a marca?
Ele confirma, arranca a tanga de Jairo e mostra.
— Essa é a marca? Parece só uma cicatriz.
Jairo apenas dá de ombros.
A velha decide. Deixa o guardião com ele e chama o bárbaro. Caminha até a tenda, entra, sussurros são ouvidos, e ao sair, o chama para perto. Ele se abaixa.
— Eu sei que você não é o Brutus.
O corpo trava.
Magia.
— FORMAÇÃO S.
O guardião se move imediatamente, farejando algo e avançando pela mata. A velha encosta a mão no peito do impostor, uma chama se formando lentamente.
— Todos vocês… apareçam. Ou ele morre. Inclusive você, garota invisível.
Hétera surge, perdendo a invisibilidade, surpresa demais para manter a concentração. O machado de Jairo cai de suas mãos.
As cordas do draconato se rompem. Ele se levanta, atravessa a fogueira em um salto e ataca a velha. Hétera acelera, se aproximando. A feiticeira ergue um escudo que segura os golpes, mas perde o controle sobre o impostor, que revela sua forma: Kai.
Ao mesmo tempo, na mata, o guardião encontra Nëo — e antes que reaja, uma voz ecoa atrás dele:
— SOLTE.
Pla consegue, finalmente, impor sua vontade. O arco cai.
O combate explode.
A velha some nas sombras e reaparece atacando o grupo inteiro, mas Kai reage a tempo, anulando a magia. Raízes e espinhos surgem ao redor, Hétera limita sua movimentação, e o grupo fecha o cerco. O guardião responde com uma chuva de flechas flamejantes que incendeiam o topo das árvores. Mesmo assim, Nëo encontra abertura — duas flechas. A primeira derruba o guarda. A segunda atravessa sua mão e crava na testa.
Morto.
A velha ainda resiste. Tenta escapar novamente, mas é pressionada. Kai prepara uma bola de fogo, mas ela contra-ataca, anulando-o.
— Agora estamos quites.
Isso revela sua posição.
Pla não hesita.
O disparo prateado a atinge em cheio, seguido por garras etéreas de onça que a rasgam no ar antes de jogá-la contra o chão. Jairo avança, mas um disparo interrompe tudo. O ouvido da mulher sangra. Seu corpo falha.
Contador deda sessão
críticos
naturais
grana
mortes