— Galela?

A voz de Pla ecoa pela trilha e desaparece no silêncio da floresta. Nenhuma resposta vem. Apenas o vento atravessando a bifurcação da estrada e os quatro corpos caídos diante dela. A shinkan se aproxima devagar, kasa erguido diante do peito e bastão firme na outra mão, tentando entender o que havia acontecido enquanto observava cada um deles imóvel no chão.

Então passos surgem do outro lado da trilha.

Pesados. Arrastados.

Sergius aparece saindo da mata como alguém que caminhou sem rumo por horas. O velho guerreiro para ao encarar a cena: Pla armada, quatro corpos desacordados espalhados pela estrada e marcas de batalha por toda parte.

— NÃO FUI EU! — dispara Pla imediatamente, largando o escudo e levantando as mãos.

Sergius permanece em silêncio por alguns segundos antes de perguntar o que havia acontecido. Pla então despeja tudo de uma vez, atropelando palavras enquanto conta sobre a separação na caverna, os ataques, a fuga e como encontrou os outros desacordados no meio da estrada.

Quando questionado sobre onde esteve durante todo aquele tempo, Sergius demonstra confusão. Suas lembranças surgem fragmentadas: ele recorda de permanecer na caverna defendendo a passagem, depois de conversar com alguém já do lado de fora, então apenas flashes desconexos de estar amarrado, seguidos pela memória de acordar sozinho na floresta carregando uma ressaca monstruosa. As marcas vermelhas em seus pulsos deixavam evidente que realmente estivera preso.

Antes que consigam discutir mais, o som metálico de armaduras ecoa pela estrada.

Mais inimigos.

E agora não havia tempo.

— Não podemos deixar nossos amigos para trás. Precisamos proteger o mais forte! — diz Sergius.

— E o mais sábio! — completa Pla.

Os dois agarram Jairo pelos pés e o arrastam para dentro da floresta. Em seguida, Sergius retorna sozinho e carrega de uma vez a sobra para o interior da mata, com ajuda de Pla escondendo os corpos entre galhos, folhas e troncos caídos até formar uma camuflagem improvisada que parecia menos um esconderijo e mais uma aberração feita de braços, pernas e vegetação úmida.

O velho guerreiro e a shinkan permanecem escondidos, observando em silêncio e pouco depois, um grupo de doze homens surge pela estrada bem armados e equipados. Não pareciam mercenários comuns ou saqueadores improvisados. Aquilo era uma pequena milícia organizada.

E, para surpresa dos dois, liderada por Grimonatz.

— Eu sabia! — sussurra Sergius, cerrando os dentes.

Pla se apoia contra uma árvore, claramente desorientada. Ela havia acreditado na palavra do draconato, poupado sua vida e confiado em suas intenções. Agora observava, escondida entre as folhas, o mesmo homem liderando uma força enviada para caçá-los. Naquele instante, algo dentro dela se quebrava. A honra e a palavra do povo ocidental, que até então carregavam peso e dignidade aos seus olhos, pareciam corrompidas.

Enquanto isso, a pequena milícia avalia o antigo acampamento. Observam os sinais da batalha, os rastros espalhados pela área e, por fim, os corpos do guardião e da velha caídos próximos ao local. Grimonatz se aproxima primeiro do guardião. Observa o cadáver por alguns segundos antes de virá-lo com o pé, revelando a flecha cravada em sua mão e outra atravessando sua testa.

— Você era tão promissor. — comenta o draconato.

Em seguida, aproxima-se lentamente do corpo da velha e se agacha diante dela.

— Dessa vez você foi longe demais. Não imaginaria que fosse acabar assim.

A naturalidade em sua voz torna tudo pior.

Não havia arrependimento.

Não havia hesitação.

Apenas alguém observando os resultados inevitáveis de uma caçada, então ele se levanta e faz um sinal com a mão para os homens ao redor.

— Guys, a caçada continua.

Os soldados se reúnem imediatamente e retomam a marcha pela estrada, desaparecendo.

Novamente o silêncio, e com isso Pla se aproxima para verificar os corpos, percebe algo estranho. Eles respiravam lentamente, como se estivessem presos em algum tipo de transe profundo. A shinkan tenta reunir energia para conjurar magia e modifica um de seus elixires na tentativa desesperada de recuperar forças, mas o resultado é apenas uma dor de barriga devastadora que a faz desnutrir e desistir imediatamente da ideia.

Sem alternativas, resta apenas esperar.

Escuridão.

Não como simples ausência de luz, mas como uma sensação absoluta de vazio, como se o próprio mundo tivesse deixado de existir ao redor deles.

Nëo, Kai, Hétera e Jairo despertam naquele vazio absoluto sem chão, direção ou distância. Apenas a sensação da presença uns dos outros perdida dentro de uma imensidão impossível de compreender. Aos poucos, um fio luminoso começa a surgir diante deles, fino como seda e translúcido como névoa. A energia serpenteia lentamente ao redor de Nëo, Kai e Hétera, envolvendo os três até formar um grande véu esférico ao redor deles, enquanto Jairo permanece do lado de fora, isolado daquilo que quer que estivesse acontecendo.

O bárbaro encara a estrutura luminosa por alguns segundos, observando o brilho pulsar diante de si. Estende a mão lentamente, hesitando antes de tocar. Talvez não fosse seguro. Talvez fosse melhor lamber.

Antes que pudesse colocar sua estratégia dracônica em prática, uma voz atravessa o vazio.

— O ciclo continuará… com ou sem você, bárbaro.

Jairo franze a testa.

— Tá, mas e qual o sentido disso?

A presença responde quase imediatamente, agora muito mais próxima.

— Me impressiona que você ainda questione.

Jairo sente algo tocar seu peito. Não parecia uma mão inteira, apenas um dedo frio e impossível, uma presença que não deveria existir fisicamente, mas ainda assim pressionava sua pele com clareza desconfortável.

— Já que você é parte da resposta.

O toque retorna com mais força.

— Assim como sua marca.

Na terceira vez, o impacto explode contra seu peito como uma marretada invisível.

ASSIM COMO SUA MARCA.

Jairo é lançado para trás enquanto a luz consome completamente os quatro.

O despertar é violento. A estrutura improvisada de Sergius e Pla explode quando Nëo, Kai, Hétera e Jairo acordam ao mesmo tempo, puxando o ar como se tivessem acabado de emergir do fundo de um lago. Por alguns instantes, nenhum deles consegue organizar os próprios pensamentos. Tudo parece intenso demais: os sons da floresta, o peso do próprio corpo, as emoções, a própria respiração.

Pla e Sergius recuam assustados enquanto os quatro tentam explicar o que viram naquele vazio. Mas é quando Jairo menciona as últimas palavras da entidade que todos percebem algo ainda pior.

As marcas estavam reagindo.

As de Nëo, Kai e Hétera brilhavam intensamente, pulsando sob a pele como algo vivo. As de Pla e Sergius assumiam um tom azulado suave, quase reagindo à presença dos outros. Já a marca de Jairo quase desaparecera, reduzida a algo semelhante a um arranhão antigo.

Então a verdade sobre Grimonatz finalmente surge por completo: a traição, a formação da milícia e a caçada organizada contra os marcados. Cada um reage de maneira diferente à revelação, mas o sentimento que cresce entre todos é o mesmo.

Vingança.

— Eles acham que a gente tá preso nessa floresta sendo caçado por eles? — diz Sergius, encarando os demais com uma seriedade incomum. — ELES ESTÃO PRESOS NESSA FLORESTA SENDO CAÇADOS PELA GENTE.

Como não conheciam o tamanho real das forças inimigas, decidem preparar uma emboscada entre os cânions e a floresta. Enquanto o restante do grupo organiza armadilhas e posições defensivas, Kai envia Didi para rastrear os movimentos da milícia.

O diabrete encontra uma pequena caverna transformada em quartel improvisado. Guerreiros afiam espadas contra pedras úmidas, arqueiros mergulham flechas em venenos escuros e conjuradores organizam pergaminhos enquanto discutem feitiços em voz baixa.

No centro de tudo está Grimonatz.

Atrás dele repousa um grande quadro de um homem erguendo uma rocha acima da cabeça, acompanhado pela frase: “Ode a Ivan, o Terrível”.

Sobre a mesa de pedra diante do draconato repousam mapas, armas e um pergaminho de cânhamo que imediatamente chama a atenção de Didi. Grimonatz desenrola o papel, corta a própria palma e pressiona o sangue contra a superfície enquanto uma energia sombria percorre seus braços. Seus olhos tornam-se completamente brancos.

Então começa a murmurar.

— Sim… eles estão ficando mais fortes… concordo… um deles perdeu a conexão e está fora de alcance… eliminar o restante.

Quando o ritual termina, Didi mergulha como um projétil, arranca o pergaminho da mesa e, antes de fugir, ainda ferroa Grimonatz em seu ponto mais humilhante possível. O líder se dobra imediatamente enquanto vários soldados tentam ignorar a situação vergonhosa.

Didi retorna triunfante até Kai carregando o pergaminho roubado. Pouco depois, passos começam a ecoar pela floresta — muitos passos, pesados e organizados, avançando rapidamente em direção aos cânions. A isca havia funcionado. Grimonatz finalmente havia mordido.

Pouco depois, cerca de dezesseis homens marcham até os cânions. Quando chegam ao local, encontram Sergius parado sozinho no meio da estrada, espada em uma mão, escudo na outra e o bigode perfeitamente alinhado.

As flechas atravessam seu corpo.

Ilusão.

Antes que consigam reagir, a escuridão conjurada por Kai engole parte do grupo inimigo enquanto os cânticos de Hétera atravessam a floresta como um transe hipnótico, paralisando alguns soldados ainda sem compreender o que estava acontecendo. Flechas disparadas por Nëo atravessam a sombra em sequência, derrubando inimigos sem que sequer consigam enxergar de onde vinham os disparos.

Alguns soldados tentam escalar as formações rochosas laterais na tentativa de flanquear o grupo, mas Sergius surge entre as pedras e golpeia uma das estruturas com o ombro, fazendo parte da formação desabar sobre os escaladores. Os sobreviventes continuam a subida mesmo assim, e então Hétera ergue barricadas de troncos enquanto Nëo cobre o terreno com espinhos que rasgam pernas e desaceleram o avanço.

Quando finalmente conseguem alcançar o topo, Sergius chuta a barricada.

Os troncos despencam.

Levando homens junto.

A nuvem de escuridão ainda domina parte do campo quando uma luz intensa atravessa os céus. A bola de fogo de Kai explode no centro dos soldados, espalhando corpos e fogo em todas as direções. Os que tentam fugir têm os movimentos retardados pelas magias de Hétera enquanto Jairo sustenta a linha de frente sozinho, impedindo qualquer avanço restante.

Pla luta mais contida do que os outros, cada golpe carrega hesitação.

Ainda assim, o combate prossegue sem espaço para misericórdia.

Pouco a pouco, a emboscada começa a esmagar o restante da milícia. Os soldados já não avançam organizados; lutam apenas para sobreviver. Quando percebem que a formação ruiu por completo, os quatro últimos inimigos entram em desespero e tentam fugir em direções diferentes.

Um casal dispara em direção à caverna, correndo entre as pedras na tentativa desesperada de escapar da mata. A mulher sequer consegue olhar para trás antes da flecha de Nëo atravessar o pescoço de seu parceiro. O homem cai imediatamente, levando as mãos ao ferimento enquanto o sangue escapa em jorros violentos e seu corpo agoniza contra o chão irregular.

Ela vira o rosto em choque, tentando compreender o que havia acontecido.

Kai não lhe dá tempo.

Um rajadão explosivo atravessa a escuridão e colide diretamente contra seu rosto, lançando o corpo para trás em meio a fogo e pedra quebrada.

Do outro lado da clareira, o último guerreiro que ainda mantinha coragem suficiente para atacar corre diretamente na direção de Jairo, erguendo a espada em um grito desesperado. O draconato não recua. O machado encontra a lâmina inimiga no meio do golpe e simplesmente a parte ao meio antes de continuar o movimento. O impacto atravessa pescoço e carne com brutalidade seca.

A cabeça do homem se separa do corpo antes mesmo que ele compreenda o que aconteceu.

O último sobrevivente tenta aproveitar o avanço de Jairo para atacá-lo pelas costas. Sergius percebe o movimento do alto das pedras onde observava o combate e reage imediatamente. O velho guerreiro dispara em corrida, ganha impulso na borda da formação rochosa e salta em direção ao inimigo com a espada erguida acima da cabeça, como uma pintura antiga de seus tempos de glória.

A lâmina desce com violência, e o homem é partido ao meio.

O silêncio que vem depois parece estranho demais para a floresta.

A emboscada funcionara.

Mas ainda restava o exército.

E, acima de qualquer coisa, Grimonatz.

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