O continente de Aeth fervilhava em inquietação. Suas quatro grandes nações, outrora sustentadas por frágeis acordos e diplomacias de ocasião, agora se viam presas em um ciclo de conflitos e desconfianças que pareciam não ter fim. O horizonte político se tornara enevoado, e as alianças, tão instáveis quanto as placas de gelo à deriva num mar revolto.

Diante desse cenário sombrio, um conclave diplomático foi, de forma quase milagrosa, convocado em Brevenia, onde os ecos de tempos de glória ainda podiam ser ouvidos nos corredores de pedra. O objetivo era claro: tentar conter as crescentes tensões antes que as chamas da guerra consumissem o continente inteiro. Mas as feridas abertas eram profundas, e as acusações, tão pesadas quanto antigas maldições esquecidas.

Entre as queixas que mais chamavam a atenção nos salões e tavernas lotadas:

  • O Punho de Bael, fervorosa ordem guerreira, acusava a enigmática Ethra, rainha de Althira, de esconder em suas torres ancestrais magias capazes de varrer cidades inteiras da face do mundo.

  • Mercator, o reino dos mercadores e corsários, impusera um embargo sufocante à Comuna, condenando seus campos e povoados à fome e ao desespero.

  • Althira respondia a tudo com silêncio sepulcral. Suas fronteiras estavam fechadas, viajantes eram expulsos e nenhum mensageiro retornava. Ethra permanecia oculta, sem jamais romper o véu de seu mistério.

  • Para completar, Iranel, o venerado dragão dourado da Comuna, senhor das linhas ley e protetor das cidades livres, havia desaparecido sem deixar rastros, como se a própria terra o tivesse tragado.

Foi nesse palco de desconfiança e intriga que um grupo de aventureiros — tão incomuns quanto improváveis — adentrou a praça central de Brevenia. O som de suas botas ecoava pelas pedras gastas enquanto eles se dirigiam ao coração da cidade.

Ali, ergue-se a lendária estátua de um anjo guardião, uma obra-prima de mármore esculpida séculos atrás por mãos cujo nome o tempo apagou. Tão realista era sua feição, tão meticulosa a textura das plumas e a expressão solene, que os boatos locais afirmavam que a estátua devolvia o olhar de quem a fitasse — e, para os mais supersticiosos, sussurrava segredos aos que ousassem escutá-la à noite.

Naquele instante, diante do anjo de pedra, os recém-chegados sentiram-se observados. Um breve calafrio percorreu suas espinhas, não pela visão da estátua em si, mas pela sensação ancestral de que algo maior os aguardava ali — algo que, há muito, espreitava as linhas entre o mundo dos homens e as forças além do véu.

E assim, enquanto o continente ruía à beira do abismo e as sombras se alongavam pelas muralhas de Brevenia, os dados daquele jogo antigo de deuses e homens voltavam a ser lançados.