Foi ao cair da tarde, quando as torres de Brevenia tingiam-se de dourado sob a luz oblíqua do sol poente, que os aventureiros, cansados da longa jornada e inquietos com os rumores que permeavam as ruas como névoa densa, encontraram Xandon.

O paladino de Tyr era uma figura que não passava despercebida. Alto e de porte imponente, trazia nos olhos a gravidade de quem carregava o fardo da justiça como uma armadura invisível. Os habitantes reverenciavam os Juízes, a ordem à qual ele pertencia, não apenas por sua força, mas pela lenda de sua imparcialidade absoluta — uma irmandade que julgava reis e presidentes com a mesma balança inflexível. Em tempos de paz ou caos, seu veredito era tão definitivo quanto o bater de seu martelo de guerra.

Xandon surgiu como um raio de ordem em meio ao tumulto crescente. Ao cruzar com os aventureiros na praça, seus olhos percorreram cada rosto como se sondassem suas almas. Após breves palavras, conduziu-os até um santuário discreto, afastado da praça principal, onde a luz das velas tremeluzia sobre vitrais retratando antigos atos de coragem e condenação.

Ali, compartilhou a sombra de um segredo. Um nome maldito ecoava pelas bocas mais discretas e perigosas: Lufer. Outrora um devoto servo de Ethra, guardião das relíquias sagradas de Althira, ele havia desertado, tomado pelo fervor de uma crença profana. Lufer acreditava que Ethra, a rainha silenciosa, tramava um novo cataclismo, e decidiu agir por conta própria, roubando três artefatos de poder incalculável de seus cofres ancestrais: uma capa tecida com fios de pura invisibilidade, um cetro de carvalho imbuído com as bênçãos das florestas eternas, e uma gema estelar de brilho negro, cuja origem se perdia nos primórdios de Aeth.

Mais preocupante ainda era a revelação de que Lufer havia se aliado a um culto obscuro, devotado à libertação do anjo petrificado de Brevenia. Os fanáticos acreditavam que o ser celestial, uma vez desperto de sua prisão de mármore, traria salvação e purificaria o mundo dos impuros e corruptos. Contudo, Xandon sabia o que poucos ousavam admitir: libertar tal entidade significava também romper antigas amarras que continham forças além da compreensão mortal — forças que, mais de uma vez, haviam arrasado cidades e devorado reinos inteiros.

O paladino encarregou-os então de uma missão perigosa, mas inevitável: rastrear Lufer, recuperar os artefatos e impedir que o ritual se concretizasse. Disse-lhes que o rastro do traidor levava aos ermos das colinas, onde rumores de reuniões clandestinas e sacrifícios sob a luz da lua cheia haviam começado a surgir.

Antes de partir, Xandon advertiu:
— Nem tudo que reluz é divino, apontando para sua lustrosa careca como exemplo, e nem toda promessa de salvação carrega a pureza que aparenta. Lembrem-se disso ao encararem o anjo de pedra…

A noite já se anunciava, e a cidade parecia prender a respiração, como se as próprias ruas soubessem que o destino de Aeth começava a se mover em direção a um antigo precipício. E assim, com mais perguntas do que respostas, os aventureiros aceitaram o fardo da missão, conscientes de que ao seguir o rastro de Lufer, também desvendariam os segredos mais sombrios que o mundo preferia esquecer.

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