A caçada por Lufer os levou aos confins das colinas de Aeryon, uma terra esquecida onde as árvores retorcidas se fechavam sobre si como dedos esqueléticos e a névoa se arrastava pelo chão, abafando sons e escondendo presenças. Entre vales ocultos e cavernas ancestrais, seguiram rastros de passos apressados, restos de acampamentos e símbolos profanos entalhados em pedras antigas. Cada marca deixava claro que Lufer se refugiara junto aos fanáticos do culto que venerava o anjo petrificado.
Encontraram-no, enfim, sob o abrigo de uma árvore milenar cujo tronco rachado parecia sangrar seiva escura. Exausto, os olhos de Lufer ardiam com a febre de quem via o mundo à beira de um precipício e acreditava ser o único capaz de salvá-lo. Ao vê-los, não ergueu armas. Ao contrário — lançou-se de joelhos, o rosto sujo de terra e suor, implorando que se juntassem à sua causa.
Falou de Ethra, da traição que ela tramava em silêncio, de magias esquecidas que desafiavam os deuses e do anjo de mármore que, se desperto, traria ordem ao caos. Ofereceu os artefatos roubados não como barganha, mas como prova de sua fé. A voz de Lufer vacilava entre a súplica e o fervor, a loucura de quem caminhara tempo demais sob luas estranhas e carregara segredos pesados demais para o coração de um mortal.
Mas os aventureiros, marcados pelo peso das próprias escolhas e pelas vidas ceifadas em nome de causas duvidosas, não se deixaram levar. Viram não um salvador, mas um homem perdido, disposto a jogar o mundo nas chamas para satisfazer seu ideal. E ali, sob o olhar testemunha da lua crescente, ergueram suas armas e deram fim à sua jornada.
Com os artefatos em mãos, retornaram a Brevenia, encontrando uma cidade irreconhecível. Tremores faziam as construções ranger como se os alicerces da própria terra protestassem contra algum mal antigo. No céu, uma enorme lua tingida de sangue pairava, lançando seu brilho profano sobre as ruas vazias. Um feitiço fora lançado — obra de Ethra, descobriram mais tarde, uma magia proibida destinada a enfraquecer Nihil, a divindade que ainda jazia prisioneira na pedra. Mas, como todo feitiço de poder desmedido, seu preço e suas consequências fugiam ao controle de quem o conjurava.
Ao se aproximarem da praça central, a gema estelar negra começou a vibrar em sintonia com a estátua do anjo, seu brilho opaco reacendendo como um coração esquecido. Uma força invisível, antiga e indomável, pulsava ao redor. Confusos, e talvez tentados pela promessa de respostas, os aventureiros ativaram o poder contido na gema.
O mundo então se partiu em luz e sombras.
O mármore da estátua rachou, fendas se espalhando como veias de tinta negra. Em meio a um clarão, Nihil despertou. A entidade tomou forma em meio à destruição, seus olhos dois sóis pálidos e vazios. A cidade de Brevenia, outrora grandiosa, desabou sob sua fúria silenciosa. Construções se pulverizavam ao menor toque de sua energia, e aqueles que ousavam enfrentá-lo sucumbiam instantaneamente.

Xandon, fiel até o último suspiro, tentou interpor-se entre a entidade e os sobreviventes, brandindo a lâmina sagrada de Tyr. Mas Nihil não conhecia piedade ou reconhecimento — esmagou o paladino com um gesto, como quem varre poeira de um altar.
Curiosamente, quando os aventureiros se viram diante da entidade, não houve ataque. Nihil pousou sobre eles seu olhar insondável, e num instante em que o tempo pareceu cessar, algo semelhante a gratidão se fez sentir — uma aceitação cruel, pois foram eles, inadvertidamente, os libertadores de sua prisão milenar.
Sem uma palavra, Nihil partiu, deixando atrás de si uma cidade em ruínas e os sons moribundos de um povo devastado. As vidas dos aventureiros foram poupadas, mas o preço disso e as consequências de seus atos mal começavam a se revelar.
O sangue da lua ainda tingia o céu, e nas ruínas da cidade, o destino de Aeth dava seu primeiro passo em direção ao inevitável.
Contador deda sessão
críticos
naturais
grana
mortes