O monstruoso olho, ao tocar o chão, começa a se fragmentar em partículas douradas que flutuam lentamente pelo ar. O grupo permanece imóvel, catatônico, o vazio da perda de Lancelot preenchendo cada canto daquele espaço. Ninguém diz nada. Nenhuma piada, nenhum grito. Apenas o som leve das partículas se desfazendo no ar… e então, como guiadas por uma vontade invisível, elas se agrupam, formando uma escadaria etérea em espiral, subindo até se perder no infinito.

O grupo, física e emocionalmente despedaçado, segue. Não há outra saída. Ao chegarem ao topo, deparam-se não com uma sala, mas com o nada. Um céu distante e estrelado paira muito acima, e o chão, coberto por areia escura, lembra um deserto esquecido por deuses. No centro, uma tenda velha, rasgada, semi-enterrada, caída sobre si mesma.

“É aí, caras…” diz uma voz rouca sob os panos. Todos se viram, preparando-se para o próximo inimigo, mas dali sai, trôpego, Pierre X. Pupilas dilatadas, cabelo desgrenhado, cheiro de vinho e cogumelos, ele cambaleia, limpando a baba do canto da boca com um lenço pendurado na cintura. “Não faço ideia de onde tô… ou onde tá o Pegoretti.”

Antes que alguém pudesse responder, a areia silencia e a própria noite parece se curvar. Um vulto imenso rompe as sombras. Um bode bípede, três metros de altura, cascos largos, músculos tensos e pelos negros que reluziam sob a luz tímida. Quatro chifres adornam sua cabeça como uma coroa macabra e, no lugar das mãos, empunha uma foice antiga, a lâmina tão enferrujada quanto cruel. Seu nome, ainda desconhecido para os Nine, logo seria gravado na memória: Felipreto.

Pianíssimo, ainda tomado pela coragem insana da última batalha, parte em disparada, Espada da Alvorada em punho. Mas Felipreto é rápido. Muito rápido. O golpe certeiro derruba o elfo como uma boneca de pano.

Dunguy ergue seu escudo. Mauro Jonas, empunhando a Espada Esmeralda, investe ao lado. Cher, ainda assombrada pelos ataques direcionados do grande olho, hesita… e desaparece em meio ao nada. Pierre tenta conjurar um banimento dimensional, mas em meio ao torpor de drogas novas falha miseravelmente. Mëphis aproveita a brecha e arrasta Pianíssimo para longe.

A lua rompe as nuvens, e dela, Mordekäy convoca um raio, acertando o monstro. Felipreto protegeu os olhos e brandiu sua foice às cegas até sentir carne. Mauro Jonas foi atravessado pela lâmina, a foice cravada em seu abdômen. Com um golpe, o bode arremessou seu corpo contra Pianíssimo, derrubando-o novamente.

Mëphis tenta aproveitar a distração, mas é atingido pelo cabo da arma, voando metros para trás. Cher, assistindo ao massacre em outra dimensão, vê seus amigos caindo um a um, então ressurge, puxa Mauro, estanca seu ferimento e o ergue de volta à luta.

Mordekäy transforma-se em lobo gigante, lançando outro raio enquanto Pierre, suando e cambaleando, conjura feitiços necróticos. Cher, fascinada pela magia, se distrai. Mordekäy lambe os ferimentos de Pianíssimo, que respira e se levanta.

Felipreto, acuado, desfere um golpe frenético, derrubando vários de uma vez. Pianíssimo, de joelhos, solta sua espada, encosta as mãos no chão e emite um falsete que cura todos os presentes.

Mas não era o suficiente.

Cher sente algo pulsar dentro de si. Seus olhos assumem um brilho azul-branco, as pupilas se afilam como as de um dragão. O grupo percebe a mudança. Não era uma transformação qualquer. Havia ali algo ancestral.

Ela abre os braços, a energia dracônica toma forma sobre sua cabeça, e um imenso espírito de dragão se projeta no céu noturno. A luz contra as trevas. Enquanto o espírito distraía Felipreto, Mauro Jonas investe, golpeando suas patas. Felipreto cambaleia.

Mëphis desliza sob as pernas da criatura, escala sua peluda espinha e crava as cimitarras em sua jugular. O bode agoniza, sua voz misturando urros e bodejos antes de dissolver-se em partículas brilhantes. Mais uma escada etérea surge.

Subindo outra vez, os Nine chegam a um novo plano: não mais castelo, nem deserto. Um planetóide do tamanho de um vilarejo, com duas antigas e colossais cerejeiras de folhas rosadas — As Saras Gêmeas. Entre elas, flutuando na posição de lótus, um ser de longos cabelos loiros, franja e vestes alvas. Uma aura dourada envolvia seu corpo. Um elfo — ou algo além.

Iniciou-se ali uma batalha onde armas e feitiços pouco importavam: o intelecto era a única ferramenta e o grupo se mostrava desprovido.

Ele se apresentou como Avah, simpático, respondendo às perguntas com enigmas. Revelou-se uma divindade presa ali por Felipreto. Não conhecia Ethra, muito menos Nihil. Dunguy tentou se ajoelhar em reverência. Nada. Cher se transfigurou numa das sirigaitas mais belas de Aeth, oferecendo-se. Avah sorri, imperturbável. Mëphis tentou um tapa — interceptado por Mördëkäy, que preferiu dialogar com as árvores chamadas Sativa e Índica, tão drogadas quanto Pierre, porém simpáticas.

Então Pierre decide: invoca sua entidade pactuada.

Surge uma figura colossal, pele negro-esverdeada, tentáculos contidos por runas, olhos insondáveis. Ela oferece cinco perguntas, mas suas respostas são tão vazias quanto as de Avah. Frustrado, Pierre pega flores e fuma, vivendo na cabeça a vida inteira de um peixe.

“Então parece que você é o próximo obstáculo para seguirmos em frente, não acha?”, disse Dunguy.

A entidade apenas sorriu.

Cher, cansada do papo vazio e irritada pela rejeição, lançou um raio de fogo. Avah enfim reagiu, brilhando como uma supernova. Uma onda de luz acertou todos. Ninguém caiu, mas só Dunguy e Mördëkäy se protegeram atrás do escudo. Os demais, momentaneamente cegos, atacavam a esmo. Contrafeitiços voaram.

Mördëkäy transformou-se em escorpião gigante e partiu para o corpo-a-corpo. Mauro Jonas golpeava com a Espada Esmeralda, abrindo cortes. Pierre, sem enxergar, evocou uma aura mágica que virou uma fada verde. Ela deslizou pela cauda do escorpião e, num salto, mergulhou no ferimento aberto por Mauro.

O impacto final não traz sangue, mas luz.

Avah sorri pela última vez antes de se dissolver, deixando mais uma escadaria de luz.

Mais uma ascensão.

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