O grupo permanecia imóvel, cegos pela última explosão de luz, exceto Dunguy, Mördëkäy e Pierre X — que agora, além de tudo, estava surdo. A escada etérea se formava novamente, aguardando a próxima decisão. Mesmo esgotados, física e emocionalmente, eles precisavam seguir.

Pierre, absorto, deitou-se na grama, puxando algumas flores, bolando e fumando-as. Seu olhar perdido dizia mais do que qualquer palavra. A fumaça subia pelas copas das cerejeiras… e de lá ouve-se uma tosse. Um pequeno vulto despenca do alto: era Pegoretti. Ninguém sabia se ele esteve ali o tempo todo ou se havia simplesmente aparecido. Mas estava de volta.

Cher, atônita com a cena, apanhou algumas flores das Saras Gêmeas, guardando-as. Era hora de decidir. Pierre, ainda catatônico, ficou para trás. Guiados por Dunguy e Mördëkäy, o restante subiu as escadas.

Desta vez, o cenário mudou. Nada de escuridão, desertos ou planetas. Um salão de marfim, adornado com lustres e portas laterais. Ao fundo, degraus levavam a um trono imponente, ladeado por uma esfera tempestuosa. Nele, uma mulher. Alta, pele pálida como osso, cabelos negros e presos, olhos profundos e lábios vermelho-escuros. Um vestido verde-escuro adornado por detalhes dourados envelhecidos. Ethra.

— Bem-vindos, Nine. — Ela saudou com um leve sorriso.

— Então nossa fama já chegou até aqui. — Cher respondeu.

Ethra tocou sua orbe. Disse acompanhar os Nine há muito mais tempo do que imaginavam, desde o ritual da Lua Vermelha para conter Nihil.

Foi então que verdades vieram à tona:
Ethra havia selado nos andares de sua torre as “cascas” de três deuses esquecidos. Não podia destruí-los sem almas mortais a enfrentá-los.

O grande olho, sem ninguém para enxergar.
Felipreto, com ninguém para executar.
Avah, preso ao equilíbrio, sem voz.

— E vocês… eliminaram todos. — Ethra ergueu a mão, três orbes espectrais rodando em sua palma — negro, vermelho e rosa. Eles afundaram em sua pele e suas veias brilharam nas mesmas cores antes de tudo retornar ao normal.
— Obrigada. Agora podem ir.

Ethra revelou sua origem: um construto da Última Civilização, moldada para selar Nihil. Criada a partir de magia ancestral e milhares de sacrifícios. Estendeu a mão a Cher — pele fria como pedra. Abriu seu próprio peito, revelando a gema estelar negra fosca, similar àquela que Mëphis jogara na estátua de Nihil.

Cher então encarou a feiticeira.

— Miga… olha só. A gente tá no mesmo bonde. Esse continente é um caos. As poucas mulheres poderosas que conheci aqui, duas são tratadas como inimigas: você… e Nihil. Então tô aqui pra trazer algo que ninguém mais te ofereceu: diálogo.

Ethra abriu um sorriso sincero, ouvindo.

— Ninguém devia ser definido pelo que criaram pra si. E a gente já perdeu demais. Adriel caiu lutando ao nosso lado. Iranel tá conosco. O Punho também. E sendo honesta… sozinhos, a gente não consegue. Nós não queremos selar Nihil. Queremos destruí-la. E pra isso, você com a gente.

Ethra ponderou. Revelou então que Nihil era uma entidade construída para proteger o mundo contra uma ameaça ainda maior: uma divindade cósmica. Mas seu método destrutivo já não servia mais. Ethra desejava ascender — tornar-se deusa suprema e governar todas as nações, obliterar os Inquisidores e oferecer aos Nine seus maiores desejos.

— Mas e quem não quiser se curvar? — perguntou Mördëkäy.

— Não terão essa opção. — Ethra respondeu.

O acordo tinha dois preços:

1. Um consorte eterno entre os sete presentes.

2. Recuperar o Trovão de Gransax, a lança criada junto de Iranel — única capaz de canalizar o caos.

Os Nine hesitaram. Ethra percebeu e abriu as portas centrais do salão, deixando-os decidir em particular.

Na sala, Pegoretti, desconfiado, expôs:
— Estamos sendo usados… o que Iranel planeja depois de Nihil?

Cher também suspeitava. Mas todos concordaram numa condição: só haveria acordo se Lancelot voltasse.

De volta ao salão, fizeram seu pedido.

Ethra sorriu. — Que pedido singelo…
E lançou um feitiço de desejo. Veias vermelhas irradiaram de seu peito, espalhando energia escarlate. As feridas dos Nine se fecharam, as sequelas sumiram. Até as menores marcas desapareceram — o septo de Cher, a hemorroida de Mauro Jonas, a famigerada fimose de estimação de Pegoretti.

Então, diante deles, carne, ossos e músculos começaram a se recompor. Lancelot estava de volta.

O grupo mal pôde conter a emoção — o goblin acordou com um berro fino, protegendo os olhos de uma luz que não existia.

— Mas eu fiz melhor. — Ethra sorriu.

A mão dela brilhou, e num instante, a cabeça de Lancelot explodiu. Dunguy ergueu o martelo.

Mas antes de qualquer reação, o crânio se refez, seguido pelas veias, músculos e pele.

— Ele é imortal agora. — murmurou Cher.

Desconfiado, Mëphis fincou uma adaga na coxa do goblin. Ele gritou, mas a ferida se fechou num piscar.

— Agora que têm o que querem… falta o consorte. — Ethra invocou uma pequena halfling. Ela encarou os sete e apontou para Dunguy.

Ethra se aproximou. O paladino estendeu a mão. Ela colocou o anel. Uma luz dourada percorreu a armadura. Ele não sentiu poder… só um compromisso eterno.

— Você agora é meu. Nunca esqueça disso.

A feiticeira abriu um portal para o Refúgio de Iranel. Todos atravessaram, inclusive Pierre, agora recuperado.

Antes que Dunguy passasse, Ethra o segurou, olhos nos olhos.
— Meu. — repetiu, e o soltou.

No Refúgio, Iranel aguardava.

— Conseguiram a gema? — perguntou.

Cher rebateu: — Nunca foi pedido isso. Viemos conseguir o apoio dela.

O dragão insistiu. Contaram tudo, omitindo detalhes, dizendo que Dunguy se sacrificara para trazer Lancelot.
Iranel zombou. — Tudo isso… por um goblin?

Pegoretti bufou, irritado com o tom.

Iranel então reafirmou: Ethra fora criada só para selar Nihil. Agora, com os deuses destruídos e a lança em mãos, restava recuperar a Gema Estelar e eliminar Ethra.

Mördëkäy ponderou: — Vamos precisar de um bom motivo pra voltar lá.

Contrariado, Iranel concordou.

O grupo está agora com o Trovão de Gransax. E a tensão no ar não é só sobre Nihil… mas sobre quem, de fato, manipula os destinos de Aeth.

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