De volta a Althiria, agora em posse da Lótus Negra, de uma armadura dourada e lascas de cedro, o grupo vai de encontro a Gaticus, que se mostra entusiasmado em montar a bomba. Porém, ela deve ser feita no máximo um dia antes de ser usada, devido à sua instabilidade e poder de fogo.

Sendo assim, os Nine decidem rumar para os arredores da célula principal dos Inquisidores e fazer um reconhecimento do território. Antes, mandam uma carta por uma pomba branca para a guarda da fronteira, avisando da vinda do exército do Punho de Bael, que auxiliaria na batalha.

Dunguy e Pierre permanecem em Althiria, liderando o exército da capital para alcançar o restante do grupo depois. A pergunta que surge é: “Quando vamos atacar?” A resposta seria dada com a explosão da bomba de Gaticus, que serviria de sinal para os exércitos do norte e do sul se lançarem à batalha.

Lembrando que o exército do Punho precisava ser avisado sobre isso, enviam mais uma pomba com esse “pequeno detalhe”.

O caminho segue tranquilo. Claramente, os extremistas estavam concentrados em seu acampamento, e a temporada de ataques às pequenas cidades havia diminuído, talvez pelos contra-ataques dos Nine, cada vez mais frequentes.

Dias depois, chegam aos arredores do acampamento e, do topo de uma planície, observam o modus operandi dos Inquisidores com a ajuda das águias de Mördëkäy.

O acampamento é imenso, muito bem organizado, em formato retangular, com duas entradas fortemente guardadas a leste e oeste. Todo o perímetro é cercado por troncos e toras de madeira pontiagudas. Em cima delas, bandeiras toscamente pintadas com o símbolo de fogo tremulam, intercaladas com cruzes em X, onde corpos carbonizados – praticantes de magia ou simpatizantes – são exibidos.

Em um dos extremos do acampamento, jaulas a céu aberto abarrotadas de presos. No centro, um grande espaço de execução com mais cruzes, cercado por seis cabanas rebuscadas, que possivelmente guardavam os líderes ou outros segredos. O resto era um mar de barracas vermelhas e laranjas, abrigando cinco mil extremistas.

Diante da visão, o grupo decide começar a diminuir o exército inimigo de forma moderada, envenenando os tonéis de água e avisando os prisioneiros sobre o futuro ataque. Porém, a noite cai, e é tarde demais para executar qualquer plano; decidem descansar e agir no próximo dia.

Enquanto isso, Gaticus termina de preparar a bomba e lhes entrega o veneno. Em volta de um tímido fogo artificial, os Nine bebem e comem antes da grande batalha. Gaticus passa um bong com suas especiarias, e, a cada baforada, o Nine ao lado puxa e passa adiante. Pianíssimo bonga por fim.

A luz das chamas vai diminuindo, assim como o som. Não era a noite ficando mais escura; todos começavam a desmaiar.

— Desculpem, eles têm meu filho. — diz Gaticus, e isso é a última coisa que Pianíssimo ouve antes de desmaiar também.

Escuridão total.

Sons de gritos ecoam ao fundo. As consciências começam a retornar, mas a visão dos Nine é obstruída por sacos pretos em suas cabeças. Os gritos aumentam: pessoas implorando pela vida, clamando por suas mães e deuses. Junto disso, um cheiro forte de fumaça e gordura queimada. Inocentes estavam sendo queimados vivos pelos Inquisidores. De novo.

Os sacos são arrancados. Os Nine estão agora dentro do acampamento, nus, desarmados, presos em grandes cruzes dentro das seis cabanas que haviam observado. Todos os seus pertences e armas foram tirados.

Pegoretti tenta usar magia bardica. Nada acontece. Mördëkäy tenta se transformar em animal. Nada acontece. A cada tentativa de conjuração, as algemas brilham em um esmeralda incandescente e se apagam. Era Dimerítio, o metal anti-magia.

Cher está presa junto de Pianíssimo. Mördëkäy com Mauro Jonas. Mephis com Pegoretti. Estão separados em cabanas diferentes, cada uma vigiada por um guarda, que a qualquer fala ou xingamento retribui com socos e tapas.

Pianíssimo tenta seduzir um guarda. O inquisidor não se interessa por um elfo idoso de 1,50m, o que o frustra ainda mais.

Mauro Jonas tenta forçar as algemas. Sua força rasga sua própria pele contra o ferro. Tac. O som do rasgo é seco.

Nisso, entra uma garota de 14 anos, vestindo um trapo branco simbolicamente parecido com um vestido. Em seu peito e testa, o símbolo do fogo. Descalça. Atrás dela, um brutamontes de guarda-costas.

Mauro Jonas, com educação, pede para ir ao banheiro. É retribuído com um soco nas costelas. Uma delas quebra.

A garota é Dona Mirian Greta, a líder dos Inquisidores. Ela acusa o grupo pelos ataques à seita. Mördëkäy contesta, dizendo que os cartazes de procurados não condizem com os inocentes que ali estavam. Ela revira os olhos. O brutamontes soca mais uma vez.

Mirian sai e entra na cabana de Cher e Pianíssimo.

— Então você é a famosa feiticeira! — diz Dona Mirian, encarando Cher.

— Então você é a famosa feiticeira! — repete a própria Dona Mirian, mas acorrentada e nua com Pianíssimo.

— Prenda-a melhor antes que tente alguma coisa — ordena ao capanga.

Cher, com um puxão, se desvencilha das correntes, mas ao tentar conjurar magia, falha. O Dimerítio ainda a inibe. Os guardas a espancam aos socos e chutes, tentando segurá-la. Mas, acima da dor, ela sente a magia voltando ao seu corpo.

Cher se levanta, olhos vermelho incandescente.

— Agora vocês vão aprender — diz, enquanto suas sombras se erguem atrás dela, ganhando forma no chão — que travesti não é bagunça!

De suas costas, surge um espírito dracônico que rasga a tenda com um rugido.

Dona Mirian foge, protegida por guardas.

Os outros Nine escutam o alvoroço. Era a deixa. Mauro Jonas, em fúria, quebra o tronco que o prendia junto de Mördëkäy. Mephis e Pegoretti libertam-se com habilidade de ladino.

Na praça central, inquisidores correm para o tumulto.

O dragão de Cher ataca a cruz onde Pianíssimo está preso. Ele cai no chão, ainda com os grilhões. Mas escuta algo a mais: a voz de sua espada.

— Tô ouvindo uma pirralha perto de mim — diz a Alvorada em sua mente.

O dragão, com um rugido, carboniza o guarda da cabana. Junto com seu corpo, as chaves das algemas.

Livre, Pianíssimo, nu, corre em direção à voz de sua espada. O dragão, sobrecarregado, desfaz-se em névoa.

Cher, em outra dimensão, vê a silhueta do amigo e o segue.

Pianíssimo abre as cortinas de uma tenda. Não há guardas. Dentro, duas coisas importantes: uma garota encolhida, tremendo ao lado da cama, e um baú de onde sai a voz da Alvorada.

Ele pega a espada. Ouve um gemido. Dona Mirian está encolhida, assustada. Cher entra pela lona lateral e vê o baú com os pertences do grupo, mas paralisa ao virar e ver Pianíssimo.

O elfo azul está parado, nu, encarando a garota. Seu punho aperta a Alvorada.

Não há grito. Apenas o som da lâmina acertando carne. Uma, duas, três, quatro vezes.

Cher se vira. A cena é horrenda. Pianíssimo, completamente sujo de sangue, encara o que era uma garota indefesa. Dona Mirian está morta.

O elfo limpa o rosto com um gesto nobre, seu olhar pleno. Ele pega suas vestes ao lado de Cher, que o encara em choque, e começa a se vestir.

Mas não há tempo para perguntas. Precisam do grupo.

Cher sai da tenda. O dragão já havia sido derrotado. Milhares de inquisidores se concentravam no centro do acampamento. De longe, via rostos familiares — os Nine peladões.

Ela grita que os pertences estão ali. Precisam se reagrupar e fugir. Para abrir espaço, ela ergue as mãos e invoca uma das maiores bolas de fogo de sua vida, como uma lua infernal, atingindo o acampamento e matando dezenas. Antes de sumir em meio as sombras, Cher encara os grilhões que antes a prendiam, agora ali caídos no chão e reflete.

O plano falhou. Só restava fugir.

Então, ao fundo, soa uma trombeta familiar. Mordekay e Pegoretti veem, ao sul, Pierre e Dunguy, montado em um unicórnio espectral, trompa de guerra em mãos. Atrás deles, o exército de Althiria.

Outra trombeta. Mephis e Mauro Jonas olham ao norte. Bandeiras douradas com punhos em riste tremulam: é o exército do Punho de Bael.

Apesar da bomba de Gaticus nunca ter existido, a bola de fogo de Cher foi o sinal. Agora, a guerra começava.

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