Os Nine repousam protegidos na cabana mágica projetada por Pegoretti, no coração da caverna de noite infinita. Do lado de fora, sentado em frente a uma fogueira que estala e consome galhos secos, está Akron. Seus olhos acompanham, hipnotizados, a dança das chamas. Quando levanta o olhar para o horizonte eterno daquela escuridão estrelada, sua íris revela cores impossíveis: amarelo e azul.


PRELÚDIO – A Troca

Horas antes, durante a batalha contra os Inquisidores, Cher permanecera em sua dimensão sombria, observando. Esperava por uma brecha, um instante para um ataque cirúrgico, mas viu apenas o exército aliado rendendo cem inimigos sobreviventes. Ouviu a notícia da morte de Mirian. Ouviu os Nine discutindo sobre caçar um gato traidor. E, pior que tudo, testemunhou cem assassinos de inocentes sendo poupados.

Foi quando o portal para o MMG se abriu. Todos passaram. Menos ela.

Assim que o portal se fechou, a feiticeira reapareceu — não mais Cher, mas Ethra. E, em um ato de julgamento divino, decretou que a seita do fogo terminaria como começou: em chamas. Dos céus, desceu uma imensa esfera ígnea que consumiu os inquisidores restantes em um instante, extinguindo-os com a mesma velocidade com que viveram.

Após isso, Ethra deu ordens: o exército de Althira retornaria à capital, sob comando de Bob. Ela, no entanto, montou em Ledarion, seu espírito dracônico, e atravessou Mercator em direção ao Punho de Bael. Encontrou apenas alces banhados de sangue e um rastro inconfundível de fezes goblins, que a levaram até a caverna. Ali, seguiu pela descida do baixador, até alcançar Akron diante da cabana.


ATO I – O Passado

O descanso é breve, mas reparador. Ao despertarem, os Nine percebem que, ali, a noite nunca termina. E diante deles, junto da fogueira, Akron se revela. Sua forma se distorce e é Cher quem surge — revelando que nunca houve um Akron verdadeiro acompanhando o grupo até aquele ponto.

Mëphis escala ravinas, acostumado ao submundo, e avista à distância algo que parece ser uma civilização abandonada. Mas o chão treme. Todos se escondem nas laterais do cânion. Um grupo de cinco tiranossauros patrulha o local.

Diferentes dos já vistos, não têm cor alguma: são criaturas dessaturadas, como se a vida tivesse sido drenada, e cristais negros brotam de seus corpos como tumores. Um deles chega a farejar próximo de Cher, mas segue adiante, deixando apenas o peso sufocante do medo.

A cidade é um túmulo de memórias. Arquitetura outrora nobre jaz em ruínas, coberta por poeira, cinzas e pelas mesmas formações de cristal negro. Uma ave colossal, também tomada pela mesma corrupção, sobrevoa. Pianíssimo imita o som de um tiranossauro em ré bemol; a criatura responde, mas segue seu voo.

Tentam compreender os cristais: Dunguy com os ventos, Cher com as sombras, Mördëkäy com as chamas e sua bola esquerda, e até João Paulo e Kleinubing com seu conhecimento arqueológico. Nada. O cristal não reage à magia, não emite poder, não queima nem gela. Mephis arrisca tocá-lo: sua mão perde a cor. Ele solta de imediato, mas agora carrega dedos sem pigmento. Mauro Jonas recua, horrorizado com a possibilidade de trocar de etnia.

Vultos de um passado longínquo atravessam a cidade como memórias gravadas no tecido da realidade.

Na praça central, quatro grandes placas de pedra brilham com runas “translate”:

  1. “Esta é a arca de nosso povo. Aqui depositamos toda nossa esperança.”

  2. “Nosso mundo está sob ataque. Fizemos tudo o que podíamos.”

  3. “Os arquimagos selecionaram a filha do grande rei Liebherr. Ela será a arma que purificará o mundo.”

  4. “A filha de Liebherr falhou. Não há mais esperança. Nosso povo partirá para sempre.”

Dunguy encontra uma biblioteca, mas quase tudo se desfaz em pó ao toque. Apenas alguns volumes resistem. Entre eles, Mëphis encontra um dos mais poderosos itens já vistos: uma orbe de aumento peniano.

— Aê, vô aumenta meu bilau! — grita Mëphis.
— Não existe amizade quando o assunto é uma orbe de aumento peniano — responde o paladino, sombrio.

O grupo encara a orbe. Mëphis respira fundo e entrega-a a Dunguy em um dos atos mais belos de broderagem. A luz percorre seu corpo, brilha no peito dourado do Quebrador de Pactos e desce até suas partes íntimas.

“PÉIM!”

O som ecoa pela armadura. O paladino olha para baixo, olhos marejados: de dois para oito centímetros. Não era mais uma condição — apenas uma vergonha.

Por fim, Mördëkäy encontra um tomo intitulado “O Fim dos Dias”, um relato sombrio que revela toda a verdade.


ATO II – A Verdade

“Houve um tempo em que nosso povo vivia em equilíbrio. Mas o mal externo surgiu, em forma de cristais negros como a noite sem estrelas.

No início, eram apenas pedras. Depois, tornaram-se feridas que se espalhavam, corrompendo criaturas e terras.

Os exércitos falharam. O céu foi tomado. O chão se partiu.

Então, os arquimagos se reuniram em esperança. Dois planos foram traçados:

Primeiro: uma arca subterrânea, onde alguns viveriam até que o mal fosse destruído.

Segundo: um ser moldado da filha do rei Liebherr — não carne, mas energia. Um anjo de magia azul, capaz de purificar os cristais e repelir a ameaça.

Ela nasceu como nossa salvação.

Chamamos-lhe Nihil.

Mas o anjo falhou. O mal invadiu a arca. Nossa última esperança corrompeu-se. E tudo que restou foi esta memória, gravada na pedra, para que algum dia, alguém compreenda nossa ruína.”


ATO III – O Final

As ruínas já haviam contado tudo. Não restava mais o que aprender.

Nihil, criada como um filtro de carvão para purificar Aeth e permitir seu repovoamento, falhou. O mal externo invadiu a Arca, extinguindo aquela civilização, e o construto seguiu atacando sem rumo, sem propósito.

Agora, com os cristais sendo o alvo da anja, o grupo decide levá-los até Iranel, esperando que o dragão pudesse usá-los em um contra-ataque. Mëphis, guarda um fragmento na caixa mágica do alaúde.

Pegoretti abre um de seus novos portais, levando todos direto ao refúgio de Iranel. João Paulo e Kleinubing ficam para trás, esquecidos.

O grupo se encontra espremido no box do banheiro do dragão, que hidratava sua pele anciã diante do espelho. Tentam, em vão, usar o limpador de privada mágico no cristal, apenas para vê-lo perder a cor. Chegam até a cogitar um uso alternativo: abrir a Clínica de Estética Cabelo & Cú, oferecendo clareamento e platinado com cristais caóticos.

Iranel explica que Nihil foi criada para purificar justamente aqueles cristais — e por isso agora os perseguia. O refúgio estava condenado. A terra treme.

O dragão decide levá-los a um local ermo, onde não haveria castelos ou tavernas para arruinar. O plano: os Nine atrairiam Nihil com os cristais, enquanto ele buscava os exércitos aliados. Mas Pegoretti desconfia: acredita que o dragão pode traí-los.

Com o tremor aumentando, Mëphis joga o cristal pelo portal e todos atravessam.

Do outro lado, o pôr do sol em Mercator. O deserto já conhecido, com poucas montanhas.

Em discussões acaloradas sobre o que fazer, Mördëkäy segura firme o Trovão de Gransax, a arma absoluta. Dunguy aproxima a Gema Estelar Negra da lança, e ela é absorvida, vibrando com poder. Cher entrega sua Crucitadora, que perde a essência ao se fundir ao trovão.

— Eu não vou me desfazer da Aqüa — diz Mëphis, relutante, apertando suas cimitarras.

Um a um, os Nine sacrificam seus itens mais poderosos, imbuindo-os no Trovão. Com eles, vão também memórias e histórias. Mesmo não sendo um fragmento caótico, Mauro Jonas recusa-se, abraçando sua espada Esmeralda, arranhando o peito com a lâmina.

O Trovão vibra, emite zunidos, parece à beira de um orgasmo mágico contido por tempo demais.

Preparativos são feitos. Pianíssimo, sem espada, veste as garras dracônicas. Mëphis encara tristemente suas adagas de prata. Dunguy monta em um unicórnio espectral, acompanhado de Lancelot. Mördëkäy se transforma em um vira-lata caramelo, segurando a lança na boca.

Um portal se abre à direita: Bob lidera cinco mil soldados de Althira. Outro à esquerda: o Punho de Bael emerge em peso com mais cinco mil.

Nos céus, surge Iranel em sua forma plena — um dragão dourado colossal, mais imponente até que Baylex.

Então, o zunido corta os tímpanos. Uma luz azul incandescente despedaça o horizonte. É Nihil, voando como uma bala de canhão, atingindo Iranel de frente.

O choque é divino. Clarões dourados e azuis se entrelaçam como relâmpagos, vistos em todo Aeth. Por um instante, todos apenas contemplam a guerra dos deuses.

Mas a verdade é dura: nem Iranel resiste. Nihil avança, implacável. É hora de usar o Trovão.

Cher invoca Ledarion novamente. Dunguy monta o dragão espiritual, enquanto Mephis joga-lhe seu bastão. O plano: aproximar-se de Nihil e contê-la para receber o disparo do Trovão.

Dunguy salta em direção à anja. E erra.

Agora sua luta é contra a gravidade. Ledarion é lançado longe por Nihil. Em queda livre, o paladino finca o bastão no chão tentando reduzir o impacto. Não funciona. O estrondo da armadura contra a terra ecoa pelo deserto. Silêncio. Até que, em meio à poeira, uma mão se ergue: joinha. Dunguy vive.

Acima, Nihil e Iranel rasgam o céu. Mas a lâmina da anja atravessa o peito do dragão. Chove sangue dourado. Eles caem.

Iranel tenta se erguer, mas Nihil perfura suas asas em chamas azuis. O dragão está morto.

Os exércitos mortais avançam, mas diante de uma deusa nada são. Um único golpe da espada cria ondas de energia que os dispersam como folhas ao vento.

Os Nine não hesitam. Correm contra Nihil. Mëphis, Mördëkäy e Pianíssimo se alinham; Pegoretti e Dunguy recebem o vigor de suas canções; Cher monta Ledarion; Mauro Jonas escala o cadáver de Iranel e, de cima de suas asas, salta contra o inimigo.

É o momento. Nihil, distraída pelo exército, é contida.

Mëphis dispara o Trovão de Gransax. O feixe colossal acerta a anja. Uma asa explode em luz. Por segundos, todos ficam cegos.

Silêncio. A fumaça se dissipa. Nihil não está mais. Mas Mauro Jonas surge segurando a asa caída.

Um clarão. Nihil reaparece, monoasa, enfurecida.

Ela move sua espada. A energia invisível arremessa Mördëkäy ao chão. Cher lança uma bola de fogo que explode contra a anja, seguida pelos ataques de Ledarion. Pianíssimo rasga-a com garras dracônicas. Mephis crava suas adagas de prata. Dunguy ataca com fúria divina corrompida. Mauro Jonas perfura com a Esmeralda. Nihil grita.

O preço é alto: Pegoretti cai. Ledarion desaparece. Mördëkäy conjura um último feixe lunar que a desequilibra, antes de também tombar.

No instante final, Mauro Jonas surge diante dela. Sua espada verde corta o ar.

O mundo se parte em silêncio.

A cabeça de Nihil gira lentamente, separada do corpo. A anja explode em uma chuva de cristais azuis.

E os Nine, vitoriosos, começam a cristalizar também. Como estátuas vivas, tornam-se o resquício eterno daquela história.


Epílogo

A quilômetros dali, um gato gorducho observava o clarão no horizonte.
— Então… eles conseguiram — murmurou Gaticus para Felicus, seu filho.

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