
Ouve-se o pingar das estalagmites em uma fina lâmina d’água no chão da caverna escura. O cheiro é de maresia, peixe e umidade.
Dentro dela, oito figuras desacordadas dividem quatro jaulas toscas, amarrados de dois em dois com corda náutica velha. Nenhum sabe como veio parar ali.

Na primeira jaula desperta um elfo andrógino de ego inflado — ou seja, normal — reclamando de suas roupas. Ao lado dele, um draconato que ocupa quase todo o espaço.
Na segunda, um tiefling resmunga no escuro, planejando dar o fora dali, enquanto ao seu lado uma criança chora e pede ajuda aos deuses.
Na terceira, um senhor calvo de bigode e barriga protuberante grita contra qualquer coisa que respire — ou não. Junto dele, um homem de rosto ossudo observa em silêncio as fechaduras.
Na última jaula, um meio-elfo desperta ao ser cutucado por uma garota de sotaque estranho, que pergunta com naturalidade:
— Cadê minha lopa?
Todos vestem apenas trapos molhados. Nenhuma arma, nenhum acessório, apenas desconforto e humidade.
Os prisioneiros logo testam formas de escapar. O calvo, à base de pura raiva, arrebenta suas cordas e liberta o esquelético. Inspirado, o draconato tenta o mesmo sem sucesso. O tiefling desfaz seus nós e solta a pequena chorona, enquanto a garota invoca uma mão espectral para se libertar e soltar também o meio-elfo.
Agora livres, precisam quebrar as jaulas. A garota lança um disparo de fogo, o tiefling faz o mesmo, o ossudo congela uma fechadura que o calvo abre no chute. O draconato pede ajuda e o tiefling retruca, com desdém:
— Tinha que ser um draconato…
A garota se aproxima dele:
— Oi, você viu minha lopa? — pergunta inocente.
— Não vi sua lopa — responde o draconato, confundido, enquanto arrebenta as cordas.
— Eu não disse lopa, disse lopa!
Os ruídos chamam atenção. Do corredor iluminado por tochas fracas, surgem quatro seres meio-peixe, meio-homens. Dois trazem lanças, dois carregam uma rede.
— Ei! O que estão fazendo aí?! Vocês são os sacrifícios! Se não forem vocês, seremos nós!

O confronto é inevitável. O calvo investe contra o primeiro, mas logo é preso pela rede, assim como o meio-elfo — não sem antes este lançar um feitiço que derruba dois inimigos. O ossudo estende a mão silenciosa e dissolve outro peixe em fumaça verde. O tiefling incendeia um, enchendo a caverna de cheiro de peixe assado. A garota explode outro com fogo, chocada por matar alguém — até ser confortada pelo meio-elfo:
— Fica calma, peixe não tem alma.
A chorona, em desespero, reza entre soluços. Uma nota errada em seu cântico dispara um feitiço instintivo que detona outro inimigo, deixando-a catatônica.

O calvo captura o último vivo e o esbofeteia por respostas. Descobrem que eram Kutotas, servos de uma divindade marinha, e que os prisioneiros seriam oferecidos em sacrifício.
Sob ameaça, o peixe leva o grupo até um altar improvisado de restos marinhos, diante de uma pintura rústica de um grande olho. Ali estão suas armas e roupas, rapidamente recuperadas.

O peixe tenta fugir, mas uma pedrada do elfo o derruba. A garota aproveita e projeta sua voz em sua mente:
— Kutota! Sou eu, seu Deus calalho! Leve estes nobles aventuleilos até a entlada da cavelna!
O peixe, emocionado, obedece. Na saída, a garota lhe faz um joinha com a mão espectral… e, em seguida, ele explode em chamas — cortesia do dedo em riste do tiefling.

Do lado de fora, uma multidão de aldeões avança com foices e ancinhos.
— Eu acho melhor vocês ficarem na de vocês. — o tiefling ameaça, fazendo o chão tremer.
Um sacerdote, Yon, acalma a situação. Explica que na vila costeira de Yavimaya três tenores, que oravam ao mar diariamente, desapareceram. A vila suspeitou que os recém-libertos fossem cultistas.

— Que lugar de Aeth estamos? — pergunta a garota, confusa.
— Aeth? Minha criança… isso é apenas uma lenda. Aqui estamos em Ardynor. — responde Yon com um sorriso gentil.
O calvo se apresenta ruidosamente:
— Prazer! Sergius! Sergius Buonapestana, ao seu dispor!
Da multidão surge um homem corpulento, o capitão da guarda costeira: Arwel.
— Peraí… você é o Sergius? O Buonapestana??
— Sim, eu mesmo! — abre os braços o calvo, orgulhoso.
— Foda-se. — retruca Arwel, antes de dar-lhe uma cabeçada que quebra seu nariz.

Este é Arwel, capitão da guarda costeira, muito menos paciente que o sacerdote. Acusa o grupo: não só os coralistas, mas também seus marinheiros sumiram após se aproximarem de um misterioso barco noturno. Sergius retruca, zombando da incompetência de Arwel — e recebe uma cabeçada que lhe quebra o nariz. Yon intervém, revelando-se clérigo: cura o ferimento e pede ajuda sincera.
Pla, a garota de sotaque estranho, pergunta:
— Se eu trouxer os coralistas de volta, posso ficar com o barco?
Arwel acena que sim. O draconato sugere substituir os cantores pela chorona, mas não funciona. A garota insiste e convence a menina a se juntar na missão. Sergius também aceita — apenas para humilhar Arwel. Assim, um acordo frágil se forma.
No caminho, se apresentam:
-
Jairo Pistonius, o bárbaro draconato.
-
Nëo Labaquë, o elfo ladino obcecado por moda.
-
Kai Hansen, o tiefling bruxo.
-
Hétera Finnraljós, a anã devota.
-
Worlag, o mago esquelético.
-
Toni, o mercador feiticeiro.
-
Pla, a shinkan (clériga).
-
Sergius Buonapestana, o barulhento guerreiro.
A forma como foram capturados é caótica: Sergius e Toni estavam bêbados em uma taverna; Hétera acariciava um cervo; Pistonius sodomizava algo; e Pla em busca de Aeth, o continente-lenda. Nada conecta as histórias, apenas dúvidas.
Na taverna de Yavimaya, o grupo atrai olhares desconfiados. Sergius pede bebidas “para ele e seus amigos”. O taverneiro aceita — se pagarem. Kai então exalta as glórias passadas de Sergius, que aproveita a deixa para contar sobre a vez que defendeu sozinho a ponte de Bruma. O ambiente muda: clientes oferecem rodadas de bebida.
Mas também surgem rumores: a vila foi esquecida por Ardynor, e uma maldição paira sobre o litoral.
No fim da noite, o grupo se dispersa. Sergius, Toni e Pistonius seguem bebendo. Kai e Worlag se recolhem, não antes do mago transformar a bebida do caneco de Arwel que se encontrava já completamente embriagado em merda, mas o marinheiro parece desfrutar com um tom familiar. Pla, Nëo e Hétera caminham até a praia, olhando o mar noturno em busca de respostas.

Assim termina o primeiro dia de um grupo que não deveria, nem queria estar junto — mas que, em Ardynor, o destino já uniu.
Contador deda sessão
críticos
naturais
grana
mortes