
A noite passou sem grandes glórias, apenas o peso silencioso de decisões mal digeridas. Na entrada da caverna de Grimonatz, enquanto a maioria dos Associados dormia espalhada entre mantos improvisados e restos de armadura, Pla permanecia acordada, sentada à beira da abertura, encarando o horizonte pantanoso como quem tenta forçar sentido em um mundo que claramente não estava interessado em fazer sentido. O cheiro de umidade, ferro e terra ainda impregnava tudo. Quando a manhã começou a nascer, tímida, Grimonatz já havia saído em busca de suprimentos, e foi nesse intervalo que Pla se levantou de súbito, como se algo finalmente tivesse se encaixado dentro dela.
— Eu tenho um plano… ou talvez palte dele!
Kai, ainda meio perdido entre ressaca e existência, ergueu um olho.
— O que é um prano?
Pla não respondeu direto, começou a andar de um lado para o outro, organizando ideias até que, quando Grimonatz retornou com comida e mais informações, tudo finalmente fez sentido para ela.
— Se os poltais são a folma dele entlar aqui… então a gente pode só… acabar com eles. Destluir.
O silêncio que se seguiu durou pouco. Sergius cruzou os braços, pensou por meio segundo e respondeu:
— Então você tá sugerindo a gente entrar na caverna… e espancar religiosos? Gostei, faz sentido.
Além disso, havia um fator prático impossível de ignorar: o culto bloqueava o acesso aos recursos da caverna, então sem portal, sem culto, sem problema, Urborg respiraria novamente. O plano estava definido, ou pelo menos parecia estar, até que tomaram a pior decisão possível, que curiosamente parecia sempre ser a escolha padrão do grupo: se separar.
Hétera, Kai e Nëo avançariam pelas sombras enquanto o restante entraria normalmente, coletando informações, e Grimonatz ficaria do lado de fora com os mortos-vivos de Vorlag, pronto para intervir caso tudo desse errado. O grupo invisível entrou primeiro, a caverna estava ainda mais cheia do que antes, centenas de religiosos murmurando orações que ecoavam pelas paredes úmidas, mas ainda assim conseguiram passar despercebidos e seguir cada vez mais fundo, até que uma pintura fez Hétera parar por um instante. Uma sombra gigantesca, braços abertos, dedos esticados, de onde saíam fios que se conectavam a oito pequenas figuras abaixo, como marionetes, e sob elas, cinco cristais partidos. Hétera não comentou nada, mas entendeu.
Enquanto isso, o outro grupo entrava pela frente, funcionando bem até o momento em que deixou de funcionar. Um dos religiosos os interceptou, desconfiado, e antes que a situação escalasse, Pla deu um passo à frente, mostrou a marca e apontou para as pinturas na parede.
— Essa é a folma que você tlata os oito malcados?
Sem dar espaço para resposta, puxou a carta de Hagar.
— Pelgunte ao seu chefe, somos glandes amigos!
O efeito foi imediato, o tom mudou, o respeito surgiu onde antes havia desconfiança e, com isso, portas se abriram. Mentiras bem contadas realmente fazem milagres.
Seguindo pelo mesmo caminho dos outros, chegaram a um ponto onde o chão simplesmente desaparecia diante deles, revelando um enorme cânion, e muitos metros abaixo, um salão colossal onde uma luz azul pulsava no centro, cercada por cabanas e estruturas — o portal. Tentaram atacar à distância, mas as magias não alcançavam e as poucas que chegavam eram repelidas, flechas se perdiam no vazio e, por um momento, parecia que nada funcionaria. Foi então que Hétera deu um passo à frente, respirou fundo e começou a cantar. Não era apenas um canto, nem apenas magia, havia algo mais ali, algo antigo, algo que não pertencia àquele momento, e o som ecoou pela caverna como se o próprio mundo estivesse ouvindo.
A resposta veio.
Primeiro como luz.
Depois como forma.
Uma estrutura branca começou a surgir no ar, lisa como mármore, perfeita, com detalhes dourados delicados que refletiam a pouca luz ao redor, teclas tomando forma uma a uma até que o impossível se tornasse real. Um instrumento que não existia, algo que ninguém ali deveria sequer compreender, e ainda assim, naquele instante, nascia o primeiro piano de cauda da história. O tempo pareceu hesitar por um único segundo, um silêncio absoluto tomou o ambiente, e então Hétera abaixou as mãos.
O piano despencou.
O impacto reverberou como um trovão dentro da terra, esmagando a balista abaixo, partindo madeira, dobrando metal, e o som das teclas desafinadas ecoou como um lamento final, elegante demais para um fim tão brutal. Lá embaixo, o caos se instalou, gritos, correria, guardas abandonando posições, o impossível havia acontecido e agora havia uma brecha.
Sem tempo para pensar, improvisaram cordas, quinze metros, mais quinze, ainda não o suficiente. Nëo desceu primeiro, Kai veio logo atrás, e no fim da corda ambos saltaram. Nëo caiu primeiro, Kai absorveu o impacto com o joelho e se levantou, olhando à frente.
Nëo estava parado.
Imóvel.
Os olhos completamente brancos, sem expressão alguma, sem qualquer sinal de quem era segundos antes.
O arco já estava erguido.
A corda tensionada.
A flecha apontada diretamente para a testa de Kai.
E naquele instante, sem aviso, sem explicação, sem lógica alguma, Kai entendeu.
Alguma coisa deu muito errado.
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