
Kai encara a ponta da flecha apontada para o centro de sua testa por Nëo, imóvel, mãos erguidas, enquanto o mundo ao redor parece seguir em um ritmo diferente. No topo do salão, Sergius observa os moradores recuarem para dentro dos corredores e desaparece junto deles, ignorando os gritos do grupo que tenta alertar os companheiros lá embaixo. O som de cascos ecoa pela pedra e cresce até revelar Toni chegando montado em Jegue Johnson, vindo do vilarejo após encontrar Grimonatz; há algo quase inevitável na forma como todos continuam se reencontrando, como se as marcas fossem menos uma maldição e mais um elo que os puxa de volta uns aos outros. Enquanto um resumo rápido da situação é trocado, Hétera tenta conter Nëo com magia, mas algo naquele lugar interfere — quanto mais próximo do fundo do salão, mais densa e resistente parece qualquer tentativa de controle.
Sem pensar, Pla rasga a ponta da capa, enrola o tecido na mão e se lança no precipício, deslizando pela corda até metade do caminho. Suspensa no vazio, ela estende a mão na direção de Nëo.
— Pala com isso, volta ao nolmal — insiste, tentando forçar sua mente de volta ao controle, mas não há resposta; nem ela, nem Hétera conseguem romper o domínio que se instalou.
Sem alternativa, Pla dispara contra ele para interromper o ataque, acertando em cheio, mas sem provocar qualquer reação. Kai permanece parado, e dentro da mente de Nëo uma voz surge, insinuante, oferecendo tudo — poder, respostas, a realização de suas ambições — em troca de um único gesto. Contra tudo o que seria esperado e seus próprios princípios, ele nega. Seus dedos tremem, o arco vibra, a flecha vacila por um instante… até que algo toma controle, como uma mão invisível que percorre seu braço e decide por ele. No último segundo, Nëo força o desvio, e a flecha apenas raspa a cabeça de Kai antes de se perder na pedra. O contra-ataque vem imediato, a magia de Kai atinge o elfo, e os olhos dele finalmente voltam ao normal, trazendo junto a dor.
— PORRA, EU TAVA SENDO CONTROLADO!
A tensão não se dissipa. Lá em cima, o restante do grupo sente o mesmo chamado, como se o próprio salão os puxasse para baixo; a rocha se move e uma escada em espiral se forma, ligando os níveis. Eles descem rapidamente e encontram o acampamento abandonado, apenas algumas tochas iluminando o espaço. Agora, de perto, fica claro: a luz azul vem do fundo de um lago, pulsando suavemente. O desconforto cresce antes mesmo da voz surgir novamente, agora na mente de todos, oferecendo um acordo — sair dali com respostas ou insistir e descobrir por conta própria. Ninguém responde. Ninguém quer mais promessas. Eles avançam e atacam, mas nada alcança profundidade suficiente, nada surte efeito real.
Kai é o primeiro a agir diferente. Ele mergulha. Segundos depois, percebe o erro: o ar some, o corpo pesa, algo o envenena por dentro. Sem forças para voltar, conjura sobre si mesmo e é lançado de volta à superfície, emergindo de forma violenta, girando e vomitando como um corpo que rejeita o próprio ambiente. Ele mal tem tempo de recuperar o fôlego quando a água se move e uma sombra gigantesca cruza a luz no fundo do lago. O que emerge não se revela por completo, mas é o suficiente — uma massa colossal coberta por olhos de todos os tamanhos, encarando cada um deles ao mesmo tempo, com uma pele lisa envolta por uma camada viscosa que se move como névoa líquida. Sua simples presença distorce o espaço, levanta ondas, derruba o grupo, e tentáculos surgem com velocidade absurda, atingindo Kai, Nëo e Jairo antes que consigam reagir.
Enquanto os outros tentam conter a criatura, Jairo avança. Ele se coloca entre o monstro e o grupo e ataca com tudo, cravando o machado profundamente na massa gelatinosa, forçando o golpe até o limite do próprio corpo. A criatura responde com um som grave… e então algo muda. Não há impacto visível, não há ataque claro, mas Jairo simplesmente cai. As mãos vão ao pescoço, o ar não entra, o corpo entra em colapso enquanto ele tenta lutar contra algo que não pode ver. O monstro recua e desaparece nas águas, mas o efeito permanece — o corpo de Jairo começa a ser puxado para o lago, arrastado como se algo invisível o reclamasse.
O desespero é imediato. Kai lança levitação e por um instante parece funcionar, mas a força contrária é maior. Hétera tenta ajudar, e de forma quase absurda a magia se prende à cueca felpuda do draconato, transformando-a em uma âncora improvisada que o puxa de volta. Por um momento, duas forças disputam o corpo dele, até que a costura cede, ponto a ponto, e a peça se solta, deixando Jairo novamente à mercê do lago, porém agora expondo suas vergonhas.
— PUTA QUE PALIU, VOCÊS TEM A POLA DA COLDA! — grita Pla, desesperada, e finalmente a estratégia muda.
Hétera conjura sua famosa corda especificamente de cânhamo, que se prende a ele, outra é amarrada em Jegue Johnson, e todos puxam com tudo que têm, como se a própria vida estivesse sendo arrancada das mãos deles.
E está.
Aos poucos, contra algo que não se vê, o corpo de Jairo retorna. A resistência diminui, cede, desaparece. Todos caem para trás quando a força some de vez. Ele está ali. Fora da água. Imóvel.
Eles cercam o corpo, tentando qualquer coisa — magia, cura, poções — mas nada responde. O peito não sobe. Nenhum movimento. Nenhuma reação. A pele começa a perder o calor rápido demais para ser ignorado, e o olhar de Jairo, ainda aberto, já não encontra ninguém ali. Não há dor, não há luta, não há retorno — apenas a ausência completa de tudo o que, segundos atrás, ainda estava vivo.
O silêncio que se forma não é vazio.
É pesado.
Denso.
Definitivo.
Ninguém fala porque não há o que dizer. Não foi uma queda gloriosa, não foi um último golpe heroico — foi abrupto, seco, injusto. Um fim sem anúncio, sem despedida. O tipo de morte que não dá tempo de entender, só de aceitar… ou tentar negar.
Alguns ainda insistem. Um feitiço a mais. Uma tentativa tardia. Mãos pressionando o peito, como se pudessem forçar o corpo a lembrar como respirar.
Nada.
Jairo Pistonius está morto.
Pla se aproxima por fim, mais devagar do que o normal, como se cada passo fosse mais pesado que o anterior. Ela ajoelha ao lado dele e hesita, encarando aquele corpo imóvel, tentando aceitar o que está diante dela — e, ao mesmo tempo, recusando-se a fazer isso. Em sua mente, passa rápido demais o pouco tempo que viveu com aquele grupo, o caos, os erros, as situações absurdas… e como, mesmo sem querer, tudo aquilo a empurrou além do que ela era antes. Conhecimento. Prática. Experiência. Não porque estava pronta, mas porque precisou estar.
Pla posiciona as mãos sobre o peito de Jairo, em concha, e fecha os olhos.
A luz surge tímida, azul-prateada, instável, quase como se não soubesse se deveria existir. Ela percorre os braços da shinkan, cresce com esforço, pulsa uma vez… e então se projeta para o corpo do draconato.
O grupo observa, prende a respiração.
Por um segundo, nada acontece.
— Eu tinha uma flaca espelança…
E então—
— AAAAAH CARAIO!!!
Jairo se levanta de uma vez, puxando o ar como se tivesse sido arrancado de um afogamento eterno, olhos arregalados, corpo inteiro tremendo, vivo por um fio que ninguém ali consegue explicar. Por alguns segundos, ninguém reage, como se o mundo tivesse perdido a lógica de vez, até que o alívio vem junto com o choque, pesado, silencioso, quase inacreditável.
E mesmo assim, ninguém diz em voz alta o que todos entenderam naquele instante.
Eles não venceram.
Só não perderam… ainda.
Contador deda sessão
críticos
naturais
grana
mortes