
O grupo encara Jairo enquanto ele, com uma mão no peito, respira profundamente, trazendo de volta o ar aos pulmões dracônicos como quem retorna de um limiar que não fora feito para ser atravessado duas vezes. Seu olhar permanece fixo na escuridão ao redor, pesado, marcado por olheiras profundas e por uma sensação difícil de ignorar — como se aquilo que encontrara além fosse mais tranquilo do que o mundo ao qual fora forçado a retornar.
Pla se aproxima, observando-o com atenção.
— Como você se sente? Coleu contla a luz no fim do túnel? Como ela do outlo lado? — questiona Pla.
Jairo não responde. Permanece em silêncio, encarando o vazio, como se parte de si ainda estivesse presa naquele outro lado.
Ainda assim, havia uma missão a ser cumprida, e a atenção de todos retorna à luz no fundo do lago, agora serena, quase inofensiva à primeira vista, mas carregando uma presença que nenhum deles conseguia ignorar.
Toni lança uma bola de fogo dentro da caverna, iluminando o ambiente por completo e revelando as profundezas do lago. Nëo e Pla avançam pela água para investigar e, quando a luz é atingida, pulsa como um clarão. O impacto não é físico, mas mental. Nëo revive o caminho de sua jornada, enquanto Pla visualiza, com clareza perturbadora, a garota do lago — presa.
A luz continua ali, instável, pulsando nas profundezas.
Hétera mergulha em direção a ela. Conforme desce, sua magia se manifesta silenciosa, ampliando seu corpo até que sua estatura supere a de todos, inclusive a de Jairo, que permanece sentado, ainda se recompondo. No fundo, ela tateia a origem da luz e compreende: não se trata de um cristal, mas de um cubo vítreo que aprisiona aquela energia.
Ela empunha o machado com ambas as mãos e desfere o golpe. A luz explode em um novo clarão, revelando as fissuras no cubo — e na própria arma. O ar começa a lhe faltar. Com esforço, ela retorna à superfície, e a luz a acompanha.
Ao emergir, a energia assume forma. Uma figura feminina, azulada, espectral, de longos cabelos que flutuam como se ainda estivessem submersos. Ela paira diante do grupo com uma presença que impõe silêncio.
— Vocês… realmente me encontraram, e agora estou liberta, acredito quererem explicação. — diz a entidade.
Sua voz é suave, quase juvenil, mas carrega uma autoridade antiga. A luz que emana de seu corpo se expande e atravessa o grupo, fechando feridas, restaurando forças, trazendo vigor.
— E qual seu vulgo? — pergunta Jairo ao erguer o olhar, ainda abalado e tisti.
— Nihil. — responde ela.
O nome paira no ar, sem resposta imediata. O silêncio se estende por alguns segundos, até que Kai rompe a tensão.
— Tá, mas que porra está acontecendo em Ardynor?
A entidade sorri, calma, e então os olhos de todos brilham em azul. O mundo se dissolve, substituído por algo maior.
Não há mais caverna. Apenas memória.
“Houve um tempo em que nosso povo vivia em equilíbrio. Mas o mal externo surgiu, em uma noite sem estrelas.”
Mas da mesma forma com que a escuridão tentou se apossar de nosso mundo, os humanos se armaram de luz para combatê-lo. Eu era uma força de equilíbrio, mas como jovem, desconhecia todo meu potencial, apesar de outros me verem assim. O povo, os sábios, xamãs e ancestrais tentaram liberar esse meu potencial de forma com que conseguíssemos proteger nosso mundo. O que não sabíamos é que esse mal já havia visto isso, que sucumbiria ante meu poder e que para evitar a queda tomaria providências para a história ser contada de outra forma.
Antes de todo meu potencial ser liberto, as sombras quebraram minha mente e partiram minha alma.
Um dos fragmentos emergiu como um anjo de luz azul que deveria proteger seu povo com suas asas e purificar o mundo desse mal externo. Mas não foi isso que aconteceu pois faltava sua contraparte, o que trazia o equilibrio, assim emergindo apenas uma guerreira corrompida.
Enquanto eu, sua irmã espiritual, usei de toda minha energia para selar esse mal e contê-lo.
A visão se desfaz tão abruptamente quanto começou. O grupo retorna à caverna, mas agora com o peso da compreensão.
Os cristais não são portais. São selos.
E o mal que deveriam conter já está entre eles.
O que liga os oito não são os cristais, mas a própria magia que os mantém ativos — e essa magia é Nihil.
A entidade então revela o estado atual dos selos: dois já foram destruídos, deixando para trás apenas destruição; dois permanecem íntegros — um ali, outro no mar — e um encontra-se corrompido.
Sylvan.
Toni permanece em silêncio, claramente desconfiado.
— Como você desconfia de um espílito angelical!? Impossível alguém que se chama Nihil se levelar maldosa! — indaga Pla.
O grupo decide seguir para o norte, em busca de Grimonatz inicialmente para lhes ajudar com o deslocamento.
— Queis faze parte da trupe? — pergunta Jairo.
— Eu acho que conseguiria me fazer necessária e ajudar, mas há quem lute contra o selo do portal, não seria seguro eu andar junto a esmo. — responde Nihil.
Toni observa o grupo, então fixa o olhar na mula.
— Tu consegue entra numa mula? — questiona Toni.
Os olhares recaem sobre Jegue Johnson. Nëo se aproxima do animal.
— E aí, que que tu acha disso? — pergunta Nëo.
Os relinchos vêm, e ele traduz.
— Cara, ele não tá entendendo a gente né? — comenta Jegue Johnson, através da interpretação de Nëo.
A mula continua, e Nëo traduz novamente:
— O trabalho aqui tá muito abusivo, o maluco me mete dentro de caverna, faz eu carregar tudo pra ele, me alimenta só de palha seca. Eu posso ajudar, mas quero condições melhores de vida.
Após breve negociação, o grupo concorda. Nihil possui o corpo da mula; seus olhos passam a brilhar em azul e sua crina se move suavemente, como reflexo da presença que agora a habita. Assim, o grupo agora é composto por uma mula que divide o corpo com uma divindade e exige condições dignas: O primeiro Associado com um contrato justo.
Com as feridas curadas, o grupo retorna pelo caminho que havia percorrido anteriormente. Kai invoca Didi, o diabrete, para explorar os corredores à frente, conectando-se à sua percepção. O que encontra não é resistência, nem movimento — apenas silêncio absoluto, algo profundamente errado para um local que, até pouco tempo antes, abrigava centenas de seguidores ativos. Junto ao silêncio, surge o cheiro inconfundível de ferro. Sangue.
Quando Didi alcança o salão principal, a cena se revela por completo: um massacre. Não há sinais de combate organizado, apenas destruição. Corpos dilacerados espalham-se pelo chão, membros e órgãos expostos em uma brutalidade que indica execução, não batalha. Os poucos sobreviventes — Agar entre eles — correm em desespero, tentando salvar aqueles que ainda respiram. Antes de retornar, o diabrete encara uma parede coberta por uma inscrição que ele não compreende, mas que Kai lê com clareza.
MORTE AOS 8.
Kai compartilha a informação, e o grupo avança até o salão. Agar os intercepta, visivelmente aliviado por vê-los vivos, ainda que marcados pelo combate recente. Enquanto isso, os olhos dos Associados percorrem o cenário em busca de Sergius e Vorlag, mas não encontram nada além de fragmentos irreconhecíveis entre os corpos que cercam o cristal de Urborg, ainda intacto e agora protegido por novos guardiões.
Nëo se aproxima da parede, atravessando o chão coberto de sangue e restos humanos. Passa o dedo na inscrição de cor esmeralda, ainda úmida, e leva-o à boca.
— É sangue. — afirma, com convicção.
Agar explica o que conseguiu compreender: os atacantes não eram de Urborg, não possuíam símbolos ou uniformes, mas sabiam exatamente quem eram os marcados e qual era a função do cristal. Ao dizer isso, aponta para a parede oposta, onde outra mensagem foi gravada com a mesma violência.
A LENDA VAI SER QUEBRADA.
A compreensão é inevitável, eles não estão apenas avançando e sim sendo caçados.
O grupo deixa a caverna e segue o rastro. Próximo ao esconderijo de Grimonatz, não encontram nada além de sinais de movimentação. Ao seguir as trilhas, percebem que os rastros dos assassinos e do draconato levam ao mesmo destino. Durante o percurso, Hétera encontra uma pilha de ossos e, ao reconhecê-los, recolhe o que resta de Gilbetinha em silêncio.
Mais adiante, Nëo percebe a mudança.
— Estamos sendo seguidos. — alerta.
Hétera fecha os olhos por um instante, expandindo sua percepção com a mesma consciência que tantas vezes já os guiara em situações de risco.
— Quatro… — murmura — não… três.
O grupo desacelera. O ambiente se comprime ao redor deles, como se a própria mata prendesse a respiração. Algo já havia acontecido antes mesmo de chegarem.
Nëo tenta ganhar vantagem, escalando um ponto mais alto para observar melhor. O galho cede sob seu peso. Outro se parte em sequência. E então o chão — falso — desmorona, revelando a armadilha. Ele despenca, e o som de sua queda ecoa pela clareira, acompanhado por seus gritos, denunciando a posição de todos.
Uma flecha crava-se no solo à frente do grupo.
— Vocês estão cercados, e daqui não passam. — ecoa uma voz das alturas.
A resposta é imediata. Kai ergue a mão e o mundo ao redor deles se afoga em escuridão absoluta. Seus olhos tornam-se negros enquanto o domo se fecha, engolindo aliados e inimigos na mesma ausência de luz.
Jairo não espera. Seu punho bate contra o próprio peito, e suas escamas aquecem à medida que a fúria o consome. Ele avança como um impacto inevitável, guiado mais pelo instinto do que pela visão.
Hétera entoa seus cânticos em voz firme, palavras antigas e levemente racistas que ecoam como pedra contra pedra. A magia se espalha pelo grupo, fortalecendo músculos, estabilizando ferimentos, sustentando-os naquele momento em que tudo poderia ruir.
Pla fecha põe as máscaras sobrepostas e então invoca seus guardiões. A onça pintada celestial e o lobo-guará escarlate surgem como presenças vivas, movendo-se ao redor dela e de Jairo, protegendo-o enquanto ele avança contra o inimigo que se aproxima.
Toni e Jegue Johnson já não estão mais ali — restando apenas o rastro denso de fumaça no ar, sinal de sua movimentação estratégica fora do alcance imediato do confronto.
Jairo colide com outro bárbaro no meio da escuridão. O impacto lança ambos ao chão, e o combate se transforma em uma troca brutal de golpes, carne contra carne, força contra força. O inimigo também está em fúria, e cada ataque carrega o peso de alguém disposto a morrer ali.
Do outro lado, um guerreiro rompe o limite da escuridão ao ouvir o conflito e avança diretamente contra Hétera, desferindo golpes pesados. Ela sustenta o impacto, firme, enquanto seus cânticos não cessam e sua concentração não é quebrada. A resposta vem de Kai, que surge na escuridão com rajadas flamejantes que atingem o agressor e o lançam contra uma árvore — e próximo de um buraco — o impacto ecoando seco pela clareira.
Pla, percebendo o confronto entre os bárbaros, move-se rapidamente seguida pelos gemidos dracônicos. Seus guardiões já circulam Jairo, absorvendo e revolvendo parte dos ataques enquanto ela surge por trás de seu ombro e estende a mão, liberando uma lâmina de energia divina contra o inimigo. Jairo aproveita a abertura, ergue o machado e desfere uma sequência de golpes que não deixa espaço para resposta. O corpo do adversário cede, a arma escapa de sua mão e ele cai, sem força para continuar.
No interior da armadilha, Nëo se ergue lentamente. Seus olhos percorrem o próprio corpo até encontrarem o rasgo no casaco de pele. O olhar muda. Não há cálculo. Não há estratégia.
Apenas fúria.
— VOCÊ É MEU! — Grita como se o inimigo tivesse culpa pela sua própria burrice de ter caído da árvore, sendo um perito nesse ambiente.
O guerreiro à sua frente tenta reagir, mas já é tarde. A flecha de Nëo o atinge, cravando-se em seu ombro. O homem tenta se reposicionar, puxando a arma para fora, mas não há tempo. Nëo já está sobre ele.
O impacto o derruba.
A luta termina ali.
O que segue não é combate.
É execução.
Nëo segura a mão do próprio inimigo, ainda envolta na flecha ensanguentada, e a conduz com força contra o próprio corpo. O homem tenta resistir, tentando desviar o movimento, mas isso apenas arrasta a lâmina improvisada em um corte lento, abrindo ainda mais a carne de seu pescoço.
O sangue começa a escapar de forma irregular, a respiração falha, o som que sai de sua boca não é mais humano e mesmo assim, Nëo continua.
Empurra a flecha contra o pescoço do homem, lentamente, sentindo a resistência ceder pouco a pouco. O inimigo tenta segurar, tenta impedir, mas suas mãos apenas tremem enquanto o próprio corpo o abandona.
O sangue agora não apenas escorre, ele vaza pela boca, pela garganta aberta, pelo ar, salpicando o rosto de Nëo.
O corpo começa a ceder, os movimentos perdem força, os dedos se abrem.
E então não há mais resistência.
Ainda assim, Nëo não para.
Arranca a flecha e golpeia novamente, e novamente, e novamente.
Até que o que resta no chão já não pode mais ser reconhecido como um homem.
O silêncio retorna pesado, Nëo se levanta.
Passa a mão pelos cabelos jogando-os para trás, ajeita os óculos e limpa a própria roupa com gestos simples, quase mecânicos, como se nada tivesse acontecido.
Do alto, o último inimigo observa.
— VOLTEM! — ecoa uma voz rouca pela mata, vinda de todos os lados.
O arqueiro hesita, mas recua.
Kai rompe parte da escuridão e lança uma chama que raspa o rosto do fugitivo, arrancando dele um impulso desesperado. Pla, em resposta, puxa seus kanzashis que prendiam os cabelos — os soltando lentamente pela primeira vez em frente ao grupo de forma lenta e sedosa — e os arremessa em sequência, mas os projéteis falham em alcançá-lo.
Jairo, ainda tomado pela fúria, arremessa o machado. A lâmina gira no ar como um disco de Makita e atinge a perna do homem, fazendo-o tropeçar violentamente. Pla dá um passo à frente, os olhos fixos no alvo, a voz deixando de ser apenas som e assumindo peso.
— PALE.
A palavra não ecoa como um grito, mas como uma imposição. O som se projeta através da mata como uma onda invisível, atravessando o espaço até atingir o fugitivo. No instante em que a ordem o alcança, seu corpo reage antes mesmo da mente — músculos travam, o impulso de fuga é interrompido de forma abrupta, como se sua própria vontade tivesse sido arrancada dele.
O homem para.
Não por escolha.
Mas porque não consegue mais avançar.
— CORRA.
A segunda voz não vem de um ponto específico. Ela se espalha pela mata, mais grave, mais antiga, carregada de uma presença que não apenas responde — ela invade. Não há sutileza, não há disputa delicada. É força contra força.
A ordem de Pla não se desfaz imediatamente. Por um momento, ambas coexistem.
O corpo do homem treme.
Seus músculos contraem em direções opostas.
A mente, dividida, luta para obedecer comandos incompatíveis.
Seus pés arrastam levemente o chão sem sair do lugar, como se estivesse preso entre dois impulsos irreconciliáveis.
E então, a pressão muda.
A nova voz se impõe.
Não por refinamento.
Mas por esmagamento.
A vontade que sustentava o comando de Pla é forçada para trás, comprimida até ceder espaço. O controle se rompe como uma corda tensionada além do limite.
O homem respira de forma descompassada por um único instante…
E dispara.
Corre com violência, como se o próprio corpo tentasse recuperar o tempo perdido, ignorando a dor da perna ferida, desaparecendo entre as árvores sem olhar para trás.
O silêncio que fica não é alívio.
É aviso.
Há outro conjurador.
E ele é mais forte do que parecia.

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