
— POR QUE VOCÊS PERSEGUEM GRIMONATZ?
A pergunta ecoa pelas paredes do corredor. Ao mesmo tempo, um cheiro pútrido invade a caverna e, quando o grupo se vira, encontra Vorlag acompanhado de Gilbetinha e de novos zumbis escravos. O mago havia conseguido as direções do portal de Grimonatz em Urborg com o taverneiro. Enquanto explica sua chegada, a voz torna a ecoar pelas paredes.
— POR QUE… VOCÊS… PERSEGUEM… GRIMONATZ?
Todos encaram Vorlag. Definitivamente, não era ele quem fazia a pergunta.
Pla responde, revoltada, que mesmo depois de ter poupado a vida do draconato, era Grimonatz quem perseguia o grupo, e não o contrário. Sergius, por sua vez, é mais direto: apenas queria enfiar uma espada no draconato, como os nortenhos enfiavam.
Uma lufada de ar quente atravessa a parede ao fundo da caverna. Pla direciona seu feixe de luz para as sombras e percebe que aquilo não era uma parede. Eram escamas negras como a noite. As rachaduras que pareciam marcas na pedra eram, na verdade, cicatrizes, e o limo esverdeado era a própria pele da criatura, cuja coloração transitava de um verde intenso para o negro das escamas.
Então a parede se move.
O que surge diante deles não é uma porta, mas dois olhos que se abrem lentamente. Do chão ergue-se um gigantesco dragão negro-esverdeado, antigo e imponente. Seu nome era Walrotph.
Sergius imediatamente desembainha a espada, mas o restante do grupo compreende que está diante de uma criatura de inteligência e poder muito superiores aos deles. Em vez de atacar, decidem conversar.
Walrotph revela ser um dragão ancestral cuja principal fonte de alimento é o saber. Os livros, pergaminhos, anotações e registros que preenchiam a sala eram conhecimentos que ele já havia absorvido ao longo de sua existência. Por isso tinha muito a oferecer, mas também exigia algo em troca: mais conhecimento.
O dragão então apresenta três charadas. A primeira é respondida rapidamente por Pla. Assim que a resposta é dada, uma fina linha etérea sai dela e se dirige até Walrotph, que a absorve como se fosse um pequeno canapé. Na prateleira, um novo pergaminho enrolado surge imediatamente.
A segunda pergunta permanece sem resposta. O grupo chega próximo da solução, mas não o suficiente. Walrotph continua faminto.
Na terceira, Sergius responde em um lapso de sua senilidade, e o processo se repete. A resposta abandona sua mente como um fio etéreo e é absorvida pelo dragão, que ainda não parece satisfeito. Sem uma terceira resposta, exige algo além do conhecimento: uma memória.
Os zumbis e Gilbetinha abrem caminho enquanto Vorlag passa por eles e se coloca diante do grupo.
Vorlag, ou o corpo que hoje carregava esse nome, havia vivido em Urborg, em um dos vilarejos mais populares dos pântanos. Ali tinha uma família. Desde jovem, o mago descobrira que sua dedicação aos estudos era proporcional ao sucesso que alcançava na vida e junto aos seus.
Mas aquela sede de conhecimento tornou-se uma obsessão. Vorlag ultrapassou os limites que um mago comum jamais deveria atravessar e, ao fazê-lo, deixou de enxergar a própria vida como algo importante. Para sua família, o marido e pai havia se perdido em meio à magia; para ele, a distância de seus entes queridos aumentava na mesma proporção em que se afastava dos próprios sentimentos.
Qual o preço do poder? Muitos não teriam essa resposta. Vorlag soube exatamente qual era.
Ele pagou com a vida, não a sua, mas a de seus vizinhos, de sua família e de sua vila.
Cego pela magia, em um raro instante de lucidez seus olhos se abriram para a realidade. Já não havia volta. Ele havia destruído tudo aquilo que ainda o mantinha humano. A vergonha pelo que fizera escondeu o rosto do homem atrás dos ossos de sua máscara.
Quando finalmente alcançou seu objetivo, ele já não fazia mais sentido. Ainda assim, serviu como motivação para seguir em frente e tentar reparar os erros cometidos por Vorlag.
Esse foi o pagamento de Vorlag ao dragão.
Dentro da caverna, Vorlag está de joelhos, com as mãos abertas e as palmas voltadas para cima. Sua máscara não está em seu rosto, mas caída no chão diante dele. Seus olhos vermelhos estão cheios de lágrimas, sua boca treme, mas nenhuma palavra consegue sair. Gilbetinha e os zumbis permanecem imóveis, como se até eles tivessem sido congelados pela magia.
Pela primeira vez, o grupo vê o rosto de Vorlag. Mais intenso que as cicatrizes, marcas e feridas, encontram apenas um homem triste. Pla recolhe a máscara do chão e a coloca novamente sobre seu rosto, fazendo-o retornar a si.
Da testa de Vorlag surge então um fio etéreo, semelhante ao que havia partido de Pla e Sergius, mas muito mais intenso e poderoso. Walrotph o absorve lentamente, deleitando-se com aquela memória.
— Essa memória não é mais sua, é MINHA.
Enquanto pronuncia as palavras, mais um livro surge nas prateleiras do ancião.
Em troca, Walrotph revela informações sobre os oito marcados, o ciclo eterno que os envolve, os portais e o mal maior que tentaria atravessá-los.
— Tá, mas e como a gente acaba com esse mal? — questiona Kai.
Walrotph queria sobremesa.
Ninguém estava disposto a entregar algo tão intenso quanto a memória de Vorlag, mas todos poderiam oferecer pequenos fragmentos de uma memória que, juntos, talvez fossem suficientes. A escolhida era Hétera.
Kai, Pla, Nëo, Sergius e Vorlag decidem abrir mão das memórias que possuíam da anã que já não fazia parte do grupo. Walrotph aceita a refeição e, como em um piscar de olhos, as lembranças dos cinco envolvendo a pequena anã clériga, barda e guerreira desaparecem. Em uma das prateleiras surge um pequeno pergaminho levemente arroxeado, enquanto o dragão arrota, satisfeito.
O conhecimento oferecido em troca, porém, vale a perda. O grupo descobre que a solução para derrotar o mal não está em selar ou destruir os portais, mas em aproveitar o momento em que a passagem entre as realidades estiver aberta e a divisão entre elas se tornar mais frágil. Ali estaria a oportunidade para atacar a ameaça e talvez finalmente pôr fim às marcas amaldiçoadas.
Essa passagem aconteceria em Sylvan. Eles já estavam no local correto, próximos do portal fragmentado, e os rumores sobre rituais realizados para trazer o mal através dele indicavam que Grimonatz provavelmente estava por trás de tudo.
Saciado, Walrotph não tem mais nada a oferecer. Com o movimento de uma de suas garras, uma parede de raízes se abre, revelando um caminho que conduz a um lugar de cheiro familiar: a praça de Sylvan.
Tudo parece estranhamente melhor do que antes. O grupo se contenta com a aparente tranquilidade, mas Sergius desconfia. Até as rachaduras na Grande Árvore-Mãe parecem menores, e nada ao redor demonstra sinais de ameaça. Isso apenas aumenta sua desconfiança.
O grupo segue em direção à grande árvore sagrada que guarda o portal. Ela parece tão viva quanto antes, e uma nova passagem se abre no lago em direção à sua estrutura. Conforme se aproximam, Sergius grita a plenos pulmões para que todos acordem, mas ninguém parece dar muita importância ao velho.
O grito, porém, chama a atenção de duas figuras que se aproximam. Mano e Sano, o druida e o monge, recebem os Assossiados de maneira calorosa e aparentemente tranquila. Por alguns instantes, tudo em Sylvan parece estar bem.
Até que a dupla traz as más notícias.
Grimonatz estava andando pela superfície de Sylvan.
E precisava ser detido.
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