Kai
O silêncio após a batalha contra o inimigo é absoluto. Os sobreviventes tentam digerir tudo que acabou de acontecer enquanto Kai encara o saquinho com as cinzas de Sergius, e então é quebrado pela pergunta de Kai.
- E agora, galera?
Ninguém sabe a resposta, ninguém responde.
Os dias se passam em Sylvan enquanto o grupo se recupera. Os cafés da manhã na taverna têm algumas palavras trocadas, mas o clima ainda é de enterro.
Toni reaparece com Jegue Nihil Johnson. Tinha sido ele que mandou Agar para a caverna ajudar e, na caverna de Walroth, ao tentar clamar por ajuda, pagou com sua memória e não lembrava mais para onde precisava ir.
Kai tenta puxar qual será a próxima aventura, a próxima missão. Ninguém quer responder, porque nenhuma das respostas envolveria todos. Eles sabem que os Associados haviam acabado naquela caverna.
Vorlag havia cumprido sua missão antes do fim da jornada. O peso que tirou das costas ao se livrar de suas memórias era seu limite, mas continuou pelos amigos. Jairo havia desaparecido. Pla, agora sem a marca, voltaria para seu objetivo inicial. Toni, junto de sua mula, prontamente se oferece para acompanhá-la ao litoral em busca de seu barco. Neo compra roupas. Já Kai busca um novo objetivo.
O grupo se despede. Kai, Pla, Toni e a mula partem para o litoral de Yavimaya, onde tudo havia começado. Kai para na casa de janelas azuis e porta vermelha, se despede de seus amigos e ali se estabelece por semanas.
As cinzas de Sergius ali são espalhadas, cheiradas, ingeridas, lambidas, injetadas, das formas mais sujas e asquerosas, da forma como o idoso gostaria, até que um dia chegam ao fim.
- E agora, Didi?
O diabrete não responde, logicamente, mas também não teria uma resposta concreta.
Então, em busca de algo, uma motivação, um objetivo, Kai começa uma peregrinação lenta e contemplativa em direção a Urborg.
Durante esse tempo, conhece pessoas, queima pessoas, conhece pactos novos, entidades talvez mais poderosas, e isso lhe causa uma curiosidade. Afinal, se eu posso fazer pacto com mais de uma entidade, ou ter mais poder, por que não?
Mas Ele sabe de tudo, sabe o que Kai faz e pensa e, durante essa peregrinação, as DRs com sua entidade se tornam mais constantes, as desculpas mais vagas e a relação se abala.
Um ano se passa.
Kai chega finalmente em Urborg, reencontra Vorlag, que assumiu o controle do necrotério, casa mortuária e cemitério depois de seus respectivos donos desaparecerem misteriosamente.
Em conversa com seu amigo taverneiro, outro tiefling, ouve boatos de outros viajantes de que Jairo havia sido visto na Montanha dos Anões, Dhonulir, carregando o martelo de guerra de uma anã.
Esse um ano, porém, rendeu uma chama nova de esperança em Kai, pois o Torneio Regional das Batalhas Justas havia se renovado, sob as normas da atual direção, e agora o bruxo tinha um objetivo novamente. Mais uma vitória, mais um item mágico, um anel que combine com sua coroa sinistra.
O tiefling se inscreve. As apostas são baixas, afinal, quem apostaria que o último campeão fosse perder? Seria loucura.
Mas agora ele tem uma meta e se inscreve para o torneio.
As chaves são definidas, as batalhas então começam.
Sua primeira luta, um tiefling ladino, nada surpreendente. Kai voa, se livra de ataques de perto, chuva de bolas de fogo, vitória. Em menos de um minuto, nem estava mais na arena, já havia saído.
Segunda luta, uma anã clériga. Ela parece conhecer o bruxo, talvez sua fama no torneio. Mas o modus operandi não muda, e mais uma vitória para sua lista.
Terceira luta. Há faixas com seu nome, crianças usam suas máscaras de papel, arcos com chifrinhos que piscam, fogos de artifício vermelhos e uma onda de gritos do povo:
- KAI! KAI! KAI! KAI!
Ele entra na arena chamando o público para gritar mais, nem se importa com o adversário, sorri, acena e manda beijos para a arquibancada. O tambor soa, o show começa.
Ele olha para frente. Um paladino, 2,10 m de altura, armadurado dos pés à cabeça e portando um enorme martelo de guerra. Porém, ele tem receio de avançar, parece conhecer as técnicas do tiefling. Ele aperta o cabo do martelo em suas mãos e aguarda uma deixa.
É hora de acabar com isso e cozinhar aquele paladino dentro da armadura. Kai aponta a mão para ele.
- FIREBAL!!!
Mas nada acontece. Os gritos do público começam a diminuir, todos parecem estar concentrados, prestando atenção. Ele tenta mais uma vez invocar suas chamas, nada sai de suas mãos.
Ele encara suas mãos, chacoalha-as como se tentasse fazê-las funcionar no tranco. Essa era a deixa.
No desespero de buscar por sua magia, quando olha para frente para encarar seu inimigo, ele já estava próximo, próximo demais. Ele vê, no último microssegundo, o gigante martelo acertando seu rosto em cheio.
O Ele havia arrumado suas coisas e ido embora, junto com as magias de Kai.
Tela preta.
Os olhos abrem. Ele encara um teto de madeira, tudo balança, ele está tonto.
Olha em volta e não, não está tonto, e sim dentro de um navio, mas sente que ele e o navio estão passando por um véu de magia, uma grande bolha. Rapidamente olha para seu lado e, perto de sua cama improvisada, estão suas armas, roupas, capa, coroa.
Ele não estava amarrado. Por instinto, toca seu nariz. Ele não estava quebrado, o que é estranho, porque ele lembra de ter sido quebrado pelo ataque do paladino. Mas, ao sentir seu nariz perfeitamente no lugar, também sente uma faixa em seu rosto.
Há um barril com água ao seu lado. Sua garganta está seca. Ele bebe em longos goles e então encara seu rosto refletido ali.
Retira a faixa e vê uma cicatriz gigantesca, um corte que começa em sua nuca e rasga sua pele, passando por cima de uma de suas orelhas, cortando a ponta dela, passando por sua bochecha e terminando em cima de seu lábio superior.
Seu corte está cuidado, sem magia, mas pontos foram dados e cicatrizaram a tempo de serem removidos. A queloide rosada ainda se mantém. Ele sente dor ao tocar, pouca, mas sente.
Enquanto encara seu rosto e tenta lembrar o que aconteceu, um barulho vem do outro lado da acomodação e, da escada que leva para a escotilha do convés, ele vê a cabeça de um homem, um marinheiro que lhe encara sem surpresa e grita:
- Pessoal, o tiefling acordou!!!
Dunguy, Möřđëƙäŷ, Mëphis
Um anjo cai do céu como uma estrela cadente, junto de um dragão.
O dragão está morto, o anjo se levanta e encara o grupo.
A batalha contra os Nine se inicia, o Trovão de Gransax é disparado e a acerta. Ela se levanta, mas agora, menos poderosa.
Cher controla seu dragão Ledarion, que ataca pelos ares. Dunguy, de pernas quebradas da queda do dragão ao tentar segurá-la, se esgueira e tenta fazer o que pode para deter o inimigo, enquanto Pegoretti faz um de seus melhores solos bárdicos no bandolim, inspirando os amigos. Pianíssimo pula com suas garras dracônicas. Mëphis ataca com suas cimitarras Aqua. Möřđëƙäŷ, mesmo sob o efeito de uma flora poderosa, invoca um raio lunar que acerta em cheio e cega ela por segundos, enquanto a fada skatista de Pierre circunda a anja, que tenta acertá-la a esmo.
O ataque coletivo gera uma brecha, uma distração, e correndo ao fundo vem Mauro Jonas, sorrindo, portando sua Espada Esmeralda.
Não há tempo de se virar. Quando sente a presença do bárbaro, é tarde demais.
A inimiga havia sido decapitada. Sua cabeça gira no ar e uma luz azulada explode de seu corpo em magia poderosa.
Acabou.
Todos comemoram. Mauro segura a cabeça da anja em uma mão e a lâmina da espada esmeralda em outra. Todos sorriem, se encaram.
A batalha, no final do dia, é presenciada por um céu dourado que ilumina o campo de batalha.
Então, uma fina chuva se segue. Ela brilha ao ser iluminada pelo sol.
Seus corações ainda estão frenéticos da batalha.
TUDUMTUDUMTUDUMTUDUMTUDUMTUDUM...
Mas aquela chuva acalma. Seus corações começam a bater mais lentamente.
Não havia chuva.
O que caía era a magia dispersa pela derrota de uma deusa, uma poeira de um fino cristal tocava suas peles e, lentamente, as cobria.
TUDUM...
TUM.
Seus corações param.
TUDUM...
TUDUM TUDUM TUDUM.
Mas voltam a bater. Seus corpos começam a retomar consciência rapidamente, a ponto de seus olhos encararem o mundo através de um cristal azul, que estava se craquelando, se rachando.
Dunguy, Möřđëƙäŷ e Mëphis começam a retomar a consciência. Estão no convés de um navio com uma gigante cabeça de dragão negro presa em sua proa e parecem estar passando por um véu de magia, uma grande bolha.
Enquanto seus corpos atravessam essa bolha, sentem algo novo e poderoso sendo absorvido pelos seus corpos. Da mesma forma que a cabeça dracônica da proa começa a ser desfragmentada, desaparecendo.
As roupas e armaduras estão do jeito que estavam quando finalizaram a batalha contra o anjo, mas suas feridas começam a se curar, a droga em seus corpos começa a sumir, seus cortes se fecham, seus ossos se realocam.
A magia em suas armas também reage. O que ainda era imbuído de algum poder depois do Trovão de Gransax também é limpo. As armas se tornam... apenas armas.
A armadura dourada de Dunguy perde seu brilho, seu metal fica fosco, negro, mas ele sente o peso de sua espada. A No Dashi reage diferente, a lâmina parece ter se alimentado da magia.
Mas esse poder, essa magia desconhecida, não cura somente seus corpos, mas também seus espíritos, como se tudo que houvessem aprendido até o momento tivesse sido limpo, purificado.
Os três se encaram, com mais perguntas que respostas. Onde estava o campo de batalha? Onde estava o resto do pessoal? Nenhum dos três tem a resposta.
Mas, em sua volta, três marinheiros pararam seu trabalho e contemplam o trio sendo descristalizado, sem saber o que dizer. Um quarto marinheiro está próximo da escotilha e eles ouvem ele gritar:
- Pessoal, o tiefling acordou!!!
- Onde nós estamos? Quem são vocês? Onde tá o gnomo? - questiona Mëphis a um dos marinheiros.
O mesmo larga o que estava fazendo, vai na porta do camarote do capitão e bate fortemente.
- CAPITÃO! Acabou de acontecer, é bom tu vir aqui.
Kai chega no topo do convés, com tantas perguntas quanto os três, mas, antes da resposta, atrás do trio, ouve-se um barulho.
Creck.
Aelira
A princesa Aelira vem de um passado privilegiado. O rei, Liebherr, a amava e fazia o possível para dar do bom e do melhor para o futuro de sua filha.
Aulas de esgrima, os melhores feiticeiros, magos, bruxos. Ela tinha tudo à disposição e a liberdade total para escolher o que fazer de sua vida.
Mas seu povo, que apesar de pequeno era muito poderoso, teve de lidar com uma ameaça, uma sombra vinda dos céus que consome e corrompe tudo que toca.
Com isso, um grupo dos poderosos arquimagos do reino se reúne, e é criado um plano em dois pilares:
Proteger seu povo.
Expurgar o mal.
Seu povo parte das terras ermas e férteis para um mundo subterrâneo, uma arca.
Já o segundo pilar exigia mais do povo, exigia um sacrifício.
Um poder extremo, um poder divino, digno de um grande deus, seria alimentado em um receptáculo, mas esse receptáculo precisava ser digno, puro e com um potencial mágico para comportá-lo.
O rei então, em seu momento de maior desgraça, e visando o bem maior, sacrifica sua filha. Aelira vira o epicentro desse poder, a casca, o receptáculo.
O que os arquimagos, porém, não planejavam, era o potencial disso.
O poder foi tamanho, tão além da compreensão e estudo dos sábios, que simplesmente não foi o suficiente para comportá-lo.
Foi criado um deus artificial, um deus da destruição e purificação, mas essas duas essências não couberam em Aelira, e a essência da purificação parte de seu receptáculo, restando a destruição absoluta.
Nasce, assim, Nihil.
O que deveria ser a salvadora de seu povo, agora o oblitera. Não havia limites nem filtros que limitassem seus ataques. Ela precisava destruir o mal que caiu dos céus, independente de quem estivesse na sua frente ou sofresse as consequências disso.
Enquanto isso, no fundo da mente de Nihil, envolta em um absoluto nada, escuridão, Aelira se encontrava. Ela via pelos olhos de Nihil, via o que ela fazia, matava, destruía, e não podia fazer nada, apenas assistia.
Essa era sua sina.
E por eras foi assim, de começo desespero, tentativas de controle, até um momento em que apenas aceitou que aquela seria sua maldição eterna. Ela estava fadada a acabar com tudo.
Mas...
Milhares de anos depois, uma poderosa bruxa tem o poder para vencê-la, não derrotá-la, mas ao menos conter a onda de tragédias.
E assim, o anjo da destruição é contido em forma de estátua.
- Não estou liberta, mas o mal ao menos foi contido.
Pensa Aelira em seu vazio.
Até que um idiota joga uma bota com uma Gema Estelar na estátua e, assim, sua sina retorna. O anjo está liberto.
Mas, apesar de disfuncional, aquele mesmo grupo que a libertou também é obstinado, e um fio de esperança surge para Aelira de que talvez eles conseguissem acabar com sua maldição, destruir a deusa da destruição para sempre.
E assim se faz. A cabeça de Nihil é separada de seu corpo, seguida por uma grande explosão azulada mágica.
Acabou, obrigado rapazes... e garota.
Mas ela começa a retomar a consciência no convés de um navio e parece estar passando por um véu de magia, uma grande bolha. Mas, dessa vez, sem vazio, sem ser uma expectadora.
Aelira está no controle.
Agora
Creck.
Todos no topo do navio olham para trás. A estátua de 3 m de Nihil, decapitada, começa a se descristalizar, da mesma forma que o trio, e de dentro daquela figura imponente surge uma garota de pele clara, cabelos prateados e olhos acinzentados.
Um silêncio dura alguns segundos.
- Hm, que situación, hein?
Comenta Aelira.
Dunguy, Möřđëƙäŷ e Mëphis, de olhos arregalados em espanto e ódio, se preparam para uma batalha, erguem suas armas, se posicionam para enfrentar o anjo novamente, mas dessa vez sem asas e com 1,70 m de altura.
Ela levanta suas mãos, tenta se defender, se explicar, argumentar, nada é efetivo. Dunguy a segura pela gola do manto que veste e, ela pendurada, balança seus pés procurando o chão, enquanto discutem sacrifício ou jogar ao mar.
Nisso, ouvem-se batidas no chão.
TOC TOC TOC TOC.
A porta do camarote do capitão se escancara. De lá sai um homem de idade, barba branca e longa, tapa-olho, duas pernas de pau e uma mão com um gancho, um jaquetão da Marinha de cor púrpura e ombreiras douradas.
- QUEM FOI O FILHO DE RAPARIGA QUE ATRAPALHOU UMA DE MINHAS MELHORES CAGADAS?!
Grita o capitão.
Os três reconhecem. Era o capitão Aheb.
Ele encara os três descristalizados e Kai acordado, fica surpreso de ter perdido o momento.
O capitão questiona quem é a garota, o que ela fazia em um navio exclusivamente reservado a homens. Eles explicam ser Nihil e ter saído de dentro da estátua. Isso não estava nos planos de Aheb.
- Que planos?! Onde eu tô?
Questiona Kai.
Aheb pergunta ao tiefling o que aconteceu com o navio dele e as outras estátuas. Kai não lembra de nada. É revelado que o navio de Aheb deveria encontrar Kai e uma tripulação, junto das outras estátuas em parte do caminho, e assim seguirem seu destino.
O capitão então mostra um mapa com instruções de navegação por via de estrelas, com um símbolo vermelho como objetivo. Quando o grupo encara o símbolo, uma tarja negra surge flutuando na frente de suas visões, com letras amareladas dentro, e uma voz grossa em suas cabeças narra o que estava escrito:
Niji.
Mas, ao invés de encontrar o navio de marfim no meio do caminho, viram apenas pedaços. Tudo havia sido destruído, e encontraram Kai desacordado, abraçado em uma porta de madeira, naufragado.
Kai tem um flashback.
Ele está com o rosto afundado em uma água escura, salgada. Luzes de trovões iluminam o infinito obscuro. Ele ergue a cabeça, está abraçado em uma porta.
Ao levantar a cabeça, sob um destroço maior de navio, um ser o encara.
Ele era extremamente alto, magro, não definido, porém com músculos atléticos. Ele usa uma espécie de saia, feita da pele de rostos de várias espécies e cores, élficas, tieflinas, roxas, azuis, costurados toscamente.
Isso seria o suficiente para se tornar perturbador, mas esse homem vestia uma cabeça, como se tivesse decapitado aquele animal e vestido sua cabeça dentro da carne como uma máscara. Assim como seu corpo lavado, coberto de sangue, os olhos do animal brilham em azul.
A cabeça de uma mula.
Kai volta a si, encosta em sua cicatriz no rosto. Não era do torneio. Ele lembra de ter perdido o torneio, de ter se passado um bom tempo depois disso, vivido por meio de mais malandragem que magia depois dele.
Enquanto isso, Dunguy e Möřđëƙäŷ decidem entre jogar Aelira no mar ou queimá-la viva.
Aheb tenta trazer juízo à situação. Uma garota de 20 anos, desarmada, aberta a questionamento e explicação, aquela não era mais Nihil, talvez uam vítima de suas ações.
O paladino solta a garota, mas a encara desconfiado.
Kai ouve o nome Nihil, fica confuso. Afinal, ela havia ajudado os Associados, era uma entidade pura e prestativa.
- Nihil? Você não andava em quatro patas?
Ninguém entende.
Os ânimos são levemente acalmados e o momento é aberto a explicações.
Antes disso, Aheb dá ordem a um dos marinheiros, Pierre, um meio-elfo de 10 anos. O mesmo corre para as acomodações dos marinheiros e traz um grande baú, pertences dos marinheiros que ali não estavam mais.
O grupo troca as roupas esfarrapadas pela batalha com Nihil. Mëphis, quando acha vestes dignas de sua classe e vai pegá-las, nota que a ponta de seu dedão, indicador e dedo do meio haviam sido cirurgicamente serradas, aparentemente enquanto ainda estava cristalizado. O domo de magia havia cicatrizado seus cortes. Ele lembra de ter encostado nos cristais negros com aqueles dedos, e suas pontas perdido a cor, sendo contaminado.
Kai volta para sua cama e veste também suas roupas. Aelira encontra uma armadura e sai para se vestir. Mëphis joga uma bota em suas costas.
Devidamente recompostos, Aheb contextualiza.
A batalha contra Nihil foi um evento grandioso em Aeth, a ponto de se tornar um marco histórico. Porém, a derrota do anjo da destruição foi apenas o expurgo de um mal, mas havia um outro, que sem ela se proliferou: os cristais negros.
5 anos dN se passaram com as nações tentando se reconstruir, tentando juntar os cacos, seguir com suas vidas. Mas, depois disso, os cristais negros parecem ter perdido o controle e se proliferaram como um fungo, uma praga, a ponto de alterar a geografia de Aeth, que Aheb mostra em dois mapas comparativos, matando animais, pessoas, mas também as consumindo, dominando.
Foi tentado todo tipo de magia e recurso aethense para curar a terra, mas nada parecia efetivo. A resposta havia partido junto de Nihil, ironicamente.
O povo começou a migrar para os litorais. O centro de Aeth era perigoso e agora inóspito.
Apesar de uma força naval equilibrada, Aeth não era reconhecida pela exploração do Alto-Mar. Houveram tentativas, mas era perigoso e frequentemente mortal. Não se ouvia falar de quem passava de lá.
17 anos dN, algo acontece. Uma mulher e aparentemente dois homens roubam as estátuas de Cher e Lancelot. Demoram para notar a ausência das duas no Vale do Julgamento. Poderosos feitiços ilusórios acobertam o crime.
18 anos dN, Ethra retorna junto de Cher, obstinada a reerguer Althira.
Nesse momento, o trio se entreolha. Sabiam que haviam matado Ethra.
Seu novo exército é formado e a capital reerguida, agora chamada de Nova Althiria. Fuchsia, durante os anos de desgraças, havia passado a ser reconhecida como capital, mas perdeu seu posto depois da batalha contra Ethra e seu exército, junto de Cher e da Almirante.
- Almirante?
Questiona Mëphis.
- Sim, a Almirante Pla.
Responde Aheb.
- ALMIRANTE PLA?
Kai pergunta surpreso.
- Você conhece a almirante Pla?
- Conheço a Pla, não almirante.
Esse processo leva um ano e, assim, chegam ao momento atual, 19 anos dN. Meses atrás, a mando de Ethra, o restante das estátuas é roubado, a fim de descristalizá-los como Lancelot e Cher.
Mas, durante esses anos, os Nine se tornaram grandes heróis de Aeth, reverenciados, clamados, preces eram feitas com seus nomes, e vandalizar os cristais dos nove bravos era um crime passível de morte para boa parte da nação. Então, o plano precisava ser perfeito.
E assim aconteceu. Todos os cristais foram roubados e substituídos por réplicas e separados em dois navios. Aheb entrega o jornal com a descoberta do crime.
Dunguy, Möřđëƙäŷ e Mëphis passariam junto do navio de Aheb. Nihil não estava nos planos, apenas estava junto pelos cristais dos três estarem mais próximos dela e reduzir o perigo de quebrar algum dos guerreiros durante o transporte.
Já Mauro, Pianíssimo, Pegoretti e Pierre iriam no outro navio. Nesse momento, Aheb não sabe se partiram de Aeth já no navio de marfim ou se as estátuas foram passadas de outro navio para o navio de marfim onde encontraram os destroços e Kai.
As informações não eram totalmente passadas a todos envolvidos no plano por segurança. Caso houvesse captura e interrogatório, caso usassem alguma magia para falar a verdade, não teriam como confessar o que não soubessem.
A história se alonga e o tempo passa. O céu escurece. Aheb tem algo que precisa ser entregue aos aventureiros e vai em seu camarote pegar.
Enquanto ele busca e o grupo absorve todos os acontecimentos narrados, um grande barulho seguido de um espatifar de sangue ocorre na proa do navio. Um dos marinheiros acabava de ser esmagado por algo.
Enquanto os olhos do grupo tentam seguir o som e entender a situação, outro barulho mais atrás, perto da vela. Depois mais um e, por último, Pierre. O garoto, junto dos três outros marinheiros, é morto brutalmente em uma velocidade absurda.
Do mar, então, emerge um polvo, mas não um polvo comum, nem gigante, um fucking polvo colossal, coberto por cicatrizes, marcas e furos de batalhas, mas também com tentáculos envoltos por correntes e cordas.
Ele abraça a frente do navio, que, seguindo uma forte correnteza, não para. Quatro tentáculos envolvem o navio enquanto os outros quatro se erguem das águas profundas e, montados neles como uma cavalaria, quatro sahuagins, munidos de adagas, lanças e armas perfurantes, são jogados pelos tentáculos para dentro do navio.
Um grito alto é ouvido do polvo, mas não diretamente do octópode, mas do topo de sua cabeça. Havia outro sahuagin, maior que os outros, um barão usando uma espécie de manto nas costas de algum animal peludo, molhado pelas águas do mar, e também vestindo uma máscara coberta por algas e lixo marinho.
As correntes que envolvem a cabeça do polvo levam a ele, que está montado, preso ao animal colossal, há lanças fincadas no monstro, controlando suas ações. O grito é dado, os sahuagins menores entendem: atacar, para matar.
E ali, Dunguy, Möřđëƙäŷ, Mëphis, Kai e Aelira, mesmo a contragosto dos Nine, precisam se juntar para sobreviver.
Mëphis e Aelira partem imediatamente para cima do polvo. Matar o líder, tomar controle da situação, esse era o plano mental, e assim o fazem.
No navio, Kai, mais na parte de trás, duela com um dos sahuagins, fincando adagas nas costelas do sahuagin rapidamente como se fosse um presidiário. Ele sangra um vermelho petróleo pela boca e morre, e Dunguy parte para o mais próximo de Möřđëƙäŷ, cortando o sahuagin ao meio.
Möřđëƙäŷ também foca no líder. A natureza parece não lhe escutar mais, mas seu caderno, seu grimório, lhe alimenta de magia que conquistou por esforço próprio e assim lança um feitiço no barão, que deita-se no polvo em gargalhadas incontroláveis, soltando as correntes.
Aelira, voltando a usar a espada, usa de cortes precisos em pontos vitais do barão, que não consegue se defender devido à magia de um aparente mago. Ele rola de gargalhar em seu próprio sangue.
Mëphis foca em pontos vitais e, sem suas adagas imbuídas de poder, atravessa o estômago do inimigo com uma lança, segurando-o no chão.
Möřđëƙäŷ sorri orgulhoso, mas, nisso, um dos tentáculos vara o ar, acertando-o em cheio. Ele é jogado contra a vela do navio, caindo desacordado. E assim fazendo o barão acordar do feitiço que acabara de perder a concentração.
Outro tentáculo acerta o mastro principal, partindo-o ao meio, a vela balançando no chão do navio, rasgada.
Um dos sahuagins mais próximo do polvo vê o barão sendo atacado e parte para cima de Aelira, que é acertada por mordidas seguidas de ataques com garras. E, se virando para defender-se, baixa a defesa contra o barão, que lhe ataca rasgando a lateral de suas costelas. Aelira também cai, inconsciente.
Dunguy e Möřđëƙäŷ comemoram.
Mais um ataque do polvo, o leme e seu mecanismo também são destruídos.
Kai desliza por cima do tentáculo e ataca mais um sahuagin. Pensa em jogá-lo ao mar, mas hesita. Por fim, crava duas adagas em suas mandíbulas e atravessa sua cabeça.
Dunguy corre para seu amigo tiefling e o levanta, que, desnorteado, grita:
- ONDE ESTÁ A PORRA DO CAPITÃO PRA NOS AJUDAR?
A janelinha do camarote se abre rapidamente. Aheb está do outro lado, espiando.
- Vocês precisam me proteger e proteger o navio, só eu sei navegar!
E fecha a janela.
A frustração dos aventureiros é maior que o frio da água do mar.
Em cima do polvo, muito contrariado, mas movido pelo desespero de morrer, Mëphis levanta Aelira. Depois direciona um golpe certeiro no barão, e erra. O chute acerta em cheio a cara da garota, que cai novamente, com o nariz sangrando e talvez a mandíbula deslocada.
Dunguy e Möřđëƙäŷ comemoram.
O barão retribui a tentativa de ataque, fincando as presas na clavícula de Mëphis e jogando-o para o chão. Mëphis também cai.
Os tentáculos mais uma vez se movem, destruindo o mastro da proa. O navio perde o controle. Nisso, Aheb não vê escolhas e sai de sua cabine, corre em direção ao leme e tenta conduzir o navio até um pontal.
Dunguy tenta subir no polvo, mas não consegue se segurar na pele lisa, gelatinosa, e foca no sahuagin que atacou Aelira. O animal é empalado em sua katana como um espetinho de feira.
Sem inimigos em cima do navio, tentáculos atacando o navio a esmo e tentando afundá-lo, surge uma oportunidade para Möřđëƙäŷ. Ele se concentra no líder, mira e dispara um relâmpago no inimigo que o acerta em cheio. Seu corpo se ilumina, sendo possível ver seu esqueleto, espinhas de peixe.
O barão está banhado por seu próprio sangue. Suas expressões são escondidas atrás da máscara, mas Möřđëƙäŷ consegue sentir os olhos o encarando. Antes que consiga dar mais um comando ao polvo, um raio de fogo escapa pelos dedos do tiefling, acertando a cara do líder.
Ouve-se o barulho de pururuca por trás da máscara, cheiro de peixe frito. Ele tenta manter a postura, gritar, mas apenas cospe sangue.
O barão havia morrido.
Dunguy, atacando agora diretamente o polvo sem alguém para controlá-lo, faz com que ele se desloque. Os corpos de Aelira, Mëphis e o barão caem na proa do navio.
Os tentáculos reagem. Todos se levantam. Um ataque agora seria desferido diretamente contra os sobreviventes, mas algo congela o polvo. Ele fica estático.
Um barulho ecoa do mais profundo naqueles mares, mas mesmo assim quase ensurdecedor. Era algo poderoso, grandioso e aparentemente maior que colossal.
O polvo recua, se desprende do navio e desaparece na escuridão das águas.
O grupo recupera o fôlego, ensopados, machucados, fedendo a peixe.
Möřđëƙäŷ ouve um sussurro. Vem do corpo do barão, não diretamente dele, mas de seu rosto.
Ele pega a máscara que o capitão usava, remove as algas. Era uma máscara de madeira, claramente esculpida por um artesão habilidoso. Não pertencia diretamente ao barão, havia sido tomada.
Era a máscara de um sagui.
Ele vira a máscara, sente magia, sente magia nova, sente magia poderosa.
Ela o chama, e a espinha de Möřđëƙäŷ arrepia. É algo tentador.
Möřđëƙäŷ a veste.
Por um momento, nada acontece, mas então as cores começam a ficar mais concretas, as texturas desaparecem. Tudo começa a ficar estranhamente organizado como em uma pintura infantil, um efeito psicodélico. Möřđëƙäŷ conhece.
O restante do pessoal chacoalha o tiefling, tenta remover a máscara, nada acontece. Seus olhos estão brancos, virados.
Mas então as cores começam a se misturar, todas as cores, todas as cores do mundo se juntam, e tudo fica branco, um branco absoluto, e o mago está no centro dele.
Ele pensa em pisar em algo, sente o chão. Ele pensa em se mexer, começa a andar, mas em um caminho que não leva a lugar nenhum, até que ele chega em algo? Ou algo chega nele?
Ainda é tudo absolutamente branco, mas ele começa a discernir silhuetas.
Uma porteira, aberta, mas sem cercas laterais, apenas uma porteira.
E, pendurado em um dos lados da porteira, um menino, que o encara e sorri.
- Oi!
- E aí, quem é você?
- Sou o menino, um menino na porteira, ué.
- Mas qual seu nome?
- Eu tenho muitos, então use o que preferir.
- Bob?
- Bob!
- Onde eu tô?
- Você pergunta demais, minha vez: o que que tu quer?
- Eu quero saber o que tá acontecendo aqui, porra.
- Nãão, não. O que tu quer, tipo, pra tua vida, o que tu mais deseja?
- Acho que poder, ficar mais forte.
- Pra quê? O que você vai fazer depois que ficar mais forte?
- Pra atingir meus objetivos.
- Tá, tá, mas e depois que tu atingir teus objetivos, o que tu vai fazer?
- Eu não planejei tão a longo prazo.
O menino sorri.
- Cara, eu acho que eu posso te ajudar com isso. Assim, muitos não me consideram o irmão mais forte, mas te prometo, sou o mais legal. Bora?
- Bora.
- Tá, pode passar.
O menino se vira, ainda sentado na porteira, mas o tiefling nota que o garoto tem apenas uma perna. Ele faz uma reverência boba para Möřđëƙäŷ atravessar a porteira.
O tiefling caminha, mas antes que chegue do outro lado, ele sente um poder conflitando com o dele. Quem está no controle? Quem tem mais força de vontade? O mago usa a máscara ou a máscara usa o mago?
Um duelo de força de vontade é estabelecido. Möřđëƙäŷ já pode ter caído, mas não desistido.
Então, ele vence.
E antes que termine a travessia:
- Psi! Ow! Lembra, eu sou o mais legal de todos.
O menino acena e, antes que Möřđëƙäŷ consiga falar mais algo, as cores começam a se separar, as sombras voltam aos seus lugares, as texturas. Ele está de volta no navio.
Todos lhe encaram. Ali fora haviam passado segundos, poucos minutos, mas, no infinito, parecia muito, mas o suficiente.
- Galera, conheci um piá.
Antes que ele terminasse de falar, ele sente seu rabo tieflino começar a reagir. Ele se resseca como o membro de um réptil até o ponto que cai. Todos encaram a bunda de Möřđëƙäŷ sem rabo, mas por pouco tempo.
No lugar, subitamente, cresce um rabo de macaco, de sagui.
O tiefling gira tentando ver o próprio rabo, sente que não é mais uma cauda, é quase que um novo braço. Ele pula na proteção lateral do navio, praticamente não oscila. Sua destreza havia aumentado consideravelmente. O rabo não apenas dá mais equilíbrio, ele agora ajuda, mas, assim como um membro, é preciso tomar mais cuidado.
Möřđëƙäŷ conta sobre o menino enquanto Aheb volta ao camarote do capitão e finalmente traz o que queria ter mostrado antes do ataque: um pequeno baú de couro, com um fecho prateado em forma de 9.
Mëphis nota a semelhança daquele couro, daquela textura, com a da capa de viagem de uma amiga.
Dunguy recebe o pequeno baú e, ao abrir, encontra duas poções de cura, de vida e magia, uma pena de fênix e uma carta endereçada diretamente ao paladino.
A carta era de sua esposa, Ethra, para que os aventureiros ajudassem Aeth a encontrar, em terras Além-Mar, um contrapoder que pudesse combater os cristais negros.
A carta lhe garante posses, propriedades, itens e dinheiro, mas de nada adianta se não conseguir limpar Aeth antes.
A carta terminava com uma assinatura de Ethra, mas Dunguy reconhece aquela assinatura de outra pessoa.
Möřđëƙäŷ sente o perfume da carta de longe. Conhecia o de Ethra de longe. Claramente não era a bruxa.
Mas, enfim, o pedido era simples:
Nos ajudem.
Com isso, ao encararem o infinito, reflexivos sobre o que acabara de acontecer, o que acabaram de passar, a quilômetros à sua frente surge um continente, iluminado por luzes de cor púrpura.
Niji.







